Voar com os pés no chão

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Por Betto D’Elboux | Fotos Eduardo Sardinha

Eles são apaixonados por aeromodelos e, há 10 anos, têm um ponto de encontro para extravasar toda a alegria e felicidade que este hobby proporciona semanalmente.

“Don’t slow down don’t touch the ground”, diz a letra de “Don’t Slow Down”, da banda de reggae britânica UB40.

Talvez, por isso,tenhamos escolhido subir tanto, naquela linda manhã invernal. No céu, poucas nuvens e um sol bonito. Não daqueles que esquentam.
Pelo contrário! A temperatura estava baixa, não fazia nem 10ºC, e todos usávamos agasalhos quando chegamos ao incrível platô de Arujá. Foi ali, naquele frio ensolarado de agosto, que o fotógrafo Eduardo Sardinha e eu conhecemos o Grupo de Aeromodelistas Birutas do Ar.

Ou simplesmente Gaba, para os íntimos.

Fomos bem recebidos pelo nosso anfitrião, o capitão e piloto de Airbus Rubens Bertolucci, e, imediatamente, cercados pelo grupo de aeromodelistas que já nos esperava. A empolgação de cada um deles estava escancarada em seus sorrisos. Todos falavam ao mesmo tempo.

“Não é um brinquedo! Isso é muito sério!”, dizia um. “É mais difícil pilotar um aeromodelo do que um avião real, pois, quando ele passa por você os controles de comando se invertem. E isso acontece o tempo todo”, ensinava outro.

Nem todos que ali estavam eram pilotos, como Bertolucci. Mas muitos trabalham ou trabalharam com aviação, de alguma forma. Sempre gostaram de aviões, fosse pilotando-os por dentro ou, como a maioria, por fora, com os pés fincados e firmes no chão.

“Todo dia a insônia
Me convence que o céu
Faz tudo ficar infinito
E que a solidão
É pretensão de quem fica
Escondido, fazendo fita”
“Pro Dia Nascer Feliz”, Barão Vermelho

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Naquele primeiro momento, ficou claro que, para aqueles destemidos pilotos (de aeromodelos, claro), as palavras de Cazuza do verso acima são muito reais. Ninguém fica sozinho quando o papo é decolar as pequenas aeronaves. E,sim, o céu que abriga os aviõezinhos e divide os espaços deles com aves, urubus e grandes aviões de carreira, faz tudo ficar infinito…
É um hobby. Claramente! Com tudo o que está implícito nesta palavra. Normalmente, é uma atividade interessante que se goste muito de fazer nas horas vagas e para passar o tempo. Ou seja, é praticada por prazer, nos tempos livres.
O hobby não é um trabalho e tem como objetivo o relaxamento de quem o pratica.
É exatamente isso o que acontece, todos os dias, no platô do Gaba.
Ao longo da semana, cerca de 20 aficionados se encontram lá .Mas, nos fins de semana, essa turma beira aos 70 praticantes de aeromodelismo. O mais incrível é que nem assim há congestionamento aéreo. “As pessoas vêm aqui porque gostam de encontrar os amigos, e não apenas para voar. Voar é apenas a desculpa”,explica Vladmir Figueiredo, o popular Vlad, que criou o Gaba há 10 anos, mas, como se aposentou da aviação em abril deste ano, agora pode se dedicar integralmente ao clube e os seus associados.

“There’s a feeling I get when I look to the west
And my spirit is crying for leaving
In my thoughts I have seen rings of smoke through the trees
And the voices of those who stand looking
It makes me wonder”
“Stairway to Heaven”, Led Zeppelin

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E como voam! O platô, que tem uma pista de decolagem feita exclusivamente para aeromodelos, favorece tanto as decolagens de aviões quanto de planadores. Quando pedimos que eles alinhassem suas aeronaves para as fotos, todos ficaram orgulhosos, tal qual meninos, com seus queridinhos. E tudo isso em meio a uma paisagem fantástica, onde os olhos se encantam e se perdem no horizonte. Se você não está controlando um aeromodelo, a vista, os pensamentos – e quem sabe até os sonhos – também voam longe…
É, sim, um hobby.
E também uma viagem, uma “piração”, que exige boa dedicação de quem o pratica. Dá para montar o seu próprio aeromodelo do zero, ou comprar os “quase prontos para voar” (tradução livre dos modelos Almost Ready to Fly – ARF), ou, ainda, contratar alguém que monte para você. A boa notícia é que, quase sempre,quem monta ou faz reparo e manutenção em aeromodelos também dá aulas de pilotagem e de técnicas de voo e malabarismos aéreos.

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O céu é o limite?

Gostar de aeromodelismo implica em dedicação, cuidado e uma dose de paixão. Montar um aeromodelo é tão fascinante que alguns fanáticos chegam a levar um ano, dia após dia, naquela missão detalhista, vitoriosa, quase ecumênica. E amam muito fazer tudo isso, mesmo que, no primeiro voo, seu filhote, cuidado com tanto carinho, se desfaça em pedaços no solo.
Ainda assim, terá valido a pena.
Mas, então, por tudo isso, por toda essa dedicação, esse amor… há uma tendência para a ciumeira, não? A namorada, noiva, esposa, companheira não se sente preterida pelos aviõezinhos? Nada! O Gaba – aliás, diferentemente dos outros clubes de aeromodelismo – trata bem de toda a família. É um dos poucos clubes que faz isso. O que, indubitavelmente, faz toda a diferença. Assim, qualquer pessoa que vá apenas para acompanhar ou assistir aos pilotos conta com um salão com TV, wi-fi, sofás,revistas, banheiros exclusivos, lanchonete.
Isso é importante para evitar que o prazer se torne um problema,gere uma crise ou cause… rompimentos! Sim, porque, embora não seja um hobby muito caro – pelo contrário, é um dos mais acessíveis financeiramente – ele exige investimento, tanto financeiro quanto de tempo. “Felizmente, aqui no Gaba tivemos bem poucas separações nestes 10 anos. Não enchem nem uma mão”, contabiliza Vlad.

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Orgulhoso, ele revela que o seu maior truque não é a pista, o platô bem localizado, a lojinha, nem o conforto e as áreas de lazer. “É a comida que nós servimos! Tem gente que diz que vem até aqui só por causa do nosso restaurante!”, diverte-se Vlad, complementando que a culinária, que é servida apenas nos fins de semana, segue a moda francesa: não há estoque de alimentos, já que ele compra apenas produtos sempre frescos,que são usados a cada sábado e domingo.
Na pista, aeromodelos simples se misturam a outros, mais elaborados,com riqueza de detalhes. O espaço é deveras democrático e todos podem participar, independentemente do equipamento.
O céu não é o limite, mas o bolso sim! Quem pode mais,investe mais. Simples assim. Nem idade é motivo: há pilotos de 15, 16 anos, até os com mais de 90 anos.
Diz a lenda que, certa vez, um aeromodelista bastante experiente ficou um bom tempo pilotando um… urubu! “Mas fulano, cadê o seu avião?” “Está ali! Você não está vendo?” “Acho que quem não está vendo é o senhor.” A aeronave já havia se estatelado no chão há tempos, e ele seguia acompanhando um urubu,acreditando que fosse seu aeromodelo…

Helicópteros e drones

Mas não são apenas aviões e planadores que tomam de assalto os céus de Arujá. Muitos helicópteros e drones também são vistos por lá. Que o diga o especialista em malabarismo com helicópteros Julio Cesar, conhecido como Japa. “Eu sou advogado e trabalhava muito em um escritório. Tinha uma renda mensal excelente, muito boa mesmo. Mas não era feliz. Não o tanto que sou hoje”, confessa, acrescentando que sua dedicação aos malabarismos já rendeu participação em produções cinematográficas– pilotando drones que levavam câmeras – e até em apresentações internacionais, em feiras do setor, nos Estados Unidos.

“It’s a beautiful day
Sky falls, you feel like
It’s a beautiful day
Don’t let it get away”
“Beatiful Day”, U2

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O Japa domina esta “libélula frenética” da foto com uma facilidade e velocidade alucinantes. Quase nos hipnotiza e, então, lembramos que é hora de partir. Extasiados, tomamos o caminho de volta com a certeza de que voltaremos um dia, quem sabe para decolar com as nossas próprias aeronaves. Ou apenas para saborear uma boa panqueca. E viajar em nossos pensamentos.
Afinal, como bem disse o UB40, “that you must reach that horizon before the setting of the sun”.

Gaba – www.gaba.com.br

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