SEGREDO GAULÊS

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No sudoeste da França, na região da antiga Aquitânia, uma rota de charme pela história medieval e pela arte de bem viver entre os vales dos rios Lot e Dordoigne

Por Eduardo Petta | Fotos Carol da Riva

Saint-Cirq-Lapopie surge como uma visão improvável entre tantas cenas inesquecíveis que se descortinam curva após curva de uma estrada inebriante. Ali está a vila medieval incrustada em um rochoso penhasco vertical de mais de cem metros de altura, que emerge diretamente das águas do rio Lot. A cada mudança de luz, o conjunto varia de tonalidade entre rosa e terracota. Em poucos minutos, a estrada conduz ao topo do monte, deixando Saint-Cirq aos nossos pés. Ao fundo, o azulado rio Lot serpenteia o vale. Estamos na região do chamado Périgord Noir, terra dos mil castelos e das propagandeadas vilas mais lindas da França, no sudoeste do país, entre os vales dos rios Lot e Dordoigne.

Posso jurar que ainda estou na Idade Média: sou um guerreiro dentro de uma cidade fortificada (uma bastide) do lado francês da antiga Aquitânia, região que os gauleses defenderam com unhas e dentes contra os ingleses no século 12, na chamada Guerra dos Cem Anos.

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Daí a fartura de belvederes com vistas de 360 graus para as colinas outrora hostis – e voltando para a realidade –, hoje verdejantes e repletas de bosques de nogueiras, carvalhos e amoreiras, por onde caminham os pacíficos peregrinos que vão a Santiago de Compostela, vindos da vizinha Rocamadour. Depois, eles seguem para Cahor, terra do vinho negro, feito da uva escura que alegrava os reis medievais e hoje anima o corpo cansado daqueles que descem cambaleantes as ladeiras de pedra de Saint-Cirq.

Quem primeiro me falou dessas terras foi o já falecido jornalista Reali Júnior, que era primo de minha mãe e viveu quatro décadas em Paris, como correspondente internacional.

“Vou te contar um segredo, mas guarde bem”, introduziu ele, numa conversa em março de 2011, pouco antes do seu falecimento, que acabou inspirando a mim e a minha esposa – a fotógrafa Carol da Riva – a colocar o pé na estrada. Realinho, como era chamado, foi um ilustre apreciador dos pratos e vinhos refinados e dedicava parte substancial de seu tempo a procurar lugares em que se cultivasse a arte de comer, beber e bem viver. Vira e mexe descobria um bistrô descolado nas margens do Sena, ou uma região pouco explorada, como esta, entre o vale do Lot e do Dordoigne. Nossa viagem começou em Toulouse, a cidade-rosa, cruzou Carcassone com seu belo castelo medieval, onde não resistimos e paramos, e seguiu viagem pelo vale do Lot.

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A região, também chamada de Quercy, ficou famosa pelas videiras do vinho de Cahors, de um tinto escuro, feito de uvas marcantes como a malbec. Pois é na altura da cidade de Cahor que deixamos a grande rodovia A1 e penetramos em uma sinuosa estradinha por 20 quilômetros até Saint-Cirq. Ora o asfalto se aproximava das margens do rio Lot, ora subia as colinas, proporcionando vistas espetaculares.

Outras vezes, a estrada se afastava ainda mais e cortava uma região de campos cultivados de milho e morangos, intercalados por fazendas de cabras, gados, gansos e patos. E, sem pressa, enfim chegamos a Saint-Cirq-Lapopie. Logo que descobriu a vila, na década de 1950, o poeta surrealista francês André Breton, de célebre espírito viajante, fixou residência ali.

À época, ele escreveu aos amigos: “não preciso sonhar com mais parte alguma. Achei o meu lugar”. É compreensível. Saint-Cirq mantém intocados não só o conjunto arquitetônico, mas a atmosfera medieval. Suas casas de pedras, arcos e torres arredondadas à moda francesa nem precisaram ser muito cenografada para servir de locação para filmes como Chocolate e Joana D’ Arc. São construções que hoje abrigam finas galerias de arte, ateliês, butiques de autor, cafés charmosos, museus e restaurantes estrelados, como o Le Gourmet Quercynois, que funciona em um antigo casarão do século 17 e cujo menu é um verdadeiro culto à cozinha terroir do canard (o pato) e do gras (o ganso), típicos da região, com divina carta de vinhos – de Cahor, é lógico.

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Saint-Cirq é também uma boa base para explorar o Vale do Lot, por onde flanamos nos dias seguintes, descobrindo seus castelos, cidades fortificadas e outras relíquias da Guerra dos Cem Anos que resistiram ao tempo. A que mais nos impressionou foi, sem dúvida, Rocamadour, erguida no topo de um penhasco no século 12, cuja visão a partir da estrada não é nada menos que emocionante, só comparável a um passeio pelas ruas estreitas da parte interna de sua muralha. Igrejas, capelas e casas medievais, que integram a rota dos peregrinos de Santiago de Compostela, carregam a mística dos cavaleiros templários. Mas a grande atração para as pessoas de fé é a célebre imagem da Virgem Negra, que teria realizado milhares de milagres ao longo da história.

Deixando a região do Lot, viajamos pela região vizinha, nomeada pelos ingleses como Dordoigne e rebatizada pelos franceses como Périgord. Toda ela é dividida de acordo com um sistema de cores (para facilitar o turista). Ao norte está o Périgord Vert, com vales verdejantes; ao oeste, o Périgord Blanc, de penhascos e montanhas, onde se destaca o maravilhoso Châteaux de Hautefort, castelo de conservação impecável; ao sul, o Périgord Pourpre, cujos campos são ocupados por videiras; e ao leste, o Périgord Noir, que reúne um mosaico de todas as outras zonas do Périgord e ao qual dedicamos mais tempo. Entre tantas vilas encantadoras, as quais apenas admiramos da estrada, demoramonos em duas, completamente apaixonantes:

Carennac, reduto de artistas à beira do rio Dordoigne, cenário da novela francesa La Rivière Espérance (1997); e Sarlat, aldeia medieval do século 13, uma espécie de capital francesa da trufa negra, onde a iguaria é vendida no mercado de rua nas mais diversas formas: ralada, assada, cozida ou mesmo crua. Para além das delícias de suas vilinhas medievais, o rio Dordoigne é o paraíso dos amantes da natureza. Suas águas calmas e transparentes convidam à natação (no verão é lógico) e à canoagem. Há trilhas bem marcadas pelos bosques e os escaladores desafiam as rochas de calcário dos penhascos da região. No Périgord Noir há ainda uma série de sítios arqueológicos repletos de pinturas rupestres datadas de até 20 mil anos antes de Cristo. Boa parte deles fica dentro do complexo de cavernas de Lascaux (a pouco mais de 30 quilômetros de Rocamadour).

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Partindo dali, uma pausa para queijos e vinhos comprados à beira da estrada nos rochedos do castelo de Baynac, às margens do Dordoigne. De volta ao volante, seguimos até La Roque Gageac, outra cidadezinha encantadora, e Sarlat, cujo centrinho agitado vende o tradicional foie gras do Périgord em muitas barraquinhas e onde as pessoas ficam admirando o teatro de rua.

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Muitas aldeias depois, resolvemos homenagear o Realinho e curtir a última noite em grande estilo, no La Terrasse, um relais châteuax na minúscula vila de Meyronne, cujo restaurante parece flutuar sobre as águas do rio Dordoigne.

Françoise Liébus, a simpática proprietária do estabelecimento, carrega as malas para o quarto, dá as dicas de passeio, comenta sobre vinhos e ainda toma os pedidos no romântico jantar à luz de velas. “Eu só não cozinho”, brinca. Quem pilota as panelas é o chef Pascal Perigaud, a quem devemos a dádiva do exótico banquete de quitutes, como o canelone de lula com chocolate e o creme de trufas com licor de nozes. Ao final do jantar, Françoise sentou-se à nossa mesa e contou que é muito raro receber brasileiros. “Mas tinha um que vinha muito. Era o jornalista Reali Júnior. Vocês o conheceram?”

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