Retalhos que viram renda

Retalhos que viram rendaA Dudalina, camisaria fundada nos anos 1950, doa resíduo têxtil para entidades em todo o Brasil

Por Luiza de Andrade | Fotos Eduardo Sardinha

Alguma coisa na história de Adoniran Barbosa (1910-1982), aquele sambista que cantou São Paulo em “Saudosa maloca”, “Samba do Arnesto”, “Trem das onze” e tantas outras, se encontra com a fixação de dona Adelina (1926-2008) pelos tecidos. Foi ela que, no interior de Santa Catarina, nos anos 1950, criou a camisaria Dudalina, em pleno vigor e sob o comando da mesma família até hoje.

Adoniran, pois, era um filho de imigrantes italianos pobres, da leva de camponeses que vieram de navio para o Brasil, em uma viagem de vinte e tantos dias, no finalzinho do século 19. E tinha de ganhar a vida, ainda menino. Os primeiros sambas que rascunhou na cabeça, antes mesmo de completar a maioridade, foi em suas andanças intermináveis: comprava “retalhos de tecido baratinhos” em São Paulo e ia vendê-los nos bairros pobres de Santo André, onde morava na época. Dona Adelina fazia algo parecido no Sul. Não desperdiçava nenhum tico de tecido que sobrava de sua confecção. Com seus dezesseis filhos ainda pequenos, levava os retalhos para casa e ensinava as crianças a dobrar um por um. “Minha mãe sempre foi muito cuidadosa, dentro dela já existia esse olhar de reciclar e aproveitar as coisas”, lembra sua filha Sônia Hess, hoje no comando da operação da empresa da família. “Eu e meus irmãos, ainda pequenos, aprendemos a fazer os retalhos amarradinhos, e ela vendia por quilo ou doava.”

Era o embrião de um projeto social de geração de renda que hoje beneficia 318 entidades espalhadas por quase trinta cidades do Brasil. Na verdade, se voltarmos mais ao passado, a história da camisaria começa com uma compra exagerada de tecidos, da qual dona Adelina tirou proveito do excedente, ao lado de costureiras. Era no andar superior do pequeno empório de secos e molhados, herdado dos pais de dona Adelina, que ela cuidava dos tecidos, confecções e armarinhos. Mais adiante, depois de estruturar o “império” em que a marca se tornou e se aposentar, dona Adelina passou a recolher os retalhos da confecção e fazer colchas e outros badulaques de patchwork, inspirada nos trabalhos que havia conhecido em uma viagem aos Estados Unidos no começo dos anos 1990. “Ela começou a pegar os retalhos da fábrica e montar colchas belíssimas de patchwork, também mandava para mulheres que faziam costura em casa e ensinava as pessoas a fazerem”, relembra sua filha Sônia. “Na evolução disso, dentro da proposta de responsabilidade social, resolvemos fazer os grupos de Geração de Renda.”

Em 2009, um ano depois do falecimento de dona Adelina, ela foi homenageada com a criação de um programa de incentivo à geração de renda. “Para manter a tradição do patchwork, que era uma paixão dela, pensamos em um projeto social”, conta Patricia Souza, coordenadora das ações que envolvem comunidade e responsabilidade social do Instituto Socioambiental Adelina Clara Hess de Souza, uma das ramificações da Dudalina. Colchas, sacolas e outros badulaques.

Na fábrica da Dudalina, os tecidos são estendidos sobre a mesa. Em cima, acomoda-se o molde da camisa — as costas, a frente, o punho, a gola e por aí vai. A máquina que corta o tecido já está planejada para, nos espaços em branco, inutilizados na confecção das camisas, gerar pequenos quadrados de oito centímetros, que é o tamanho máximo que se alcança entre a manga e a gola, por exemplo. Esses retalhos, portanto, atualmente saem prontos da produção. O resíduo que era jogado fora hoje é integralmente aproveitado. “Fazemos o que chamo se sustentabilidade 360º. Doamos os retalhos já cortados para as entidades, o forro interno, as linhas, as máquinas, ensinamos essas comunidades a costurar e depois compramos as sacolas prontas”, diz Sônia Hess. Para que a entidade seja contemplada pelo programa, há duas exigências. Primeiro, é preciso ter algum cunho social e cadastro na Receita Federal; segundo, deve entrar em contato com o instituto, para demonstrar interesse. Patricia Souza conta que as costureiras são capacitadas via treinamento fornecido pelo instituto: “Nós mandamos uma instrutora para a cidade e capacitamos essas mulheres a costurar”. O tempo depende do número de pessoas. São formados grupos de até dez integrantes para cursos que duram dezesseis horas. “Nós fornecemos todo o material para o curso — linha, tecido, kits de retalhos, tudo. Em alguns casos, vamos até o local, verificamos a situação da entidade e fazemos também a doação da máquina de costura. Nossas máquinas muitas vezes ficam obsoletas e são substituídas por maquinários mais modernos.”Até hoje já foram doadas 48 máquinas de costura. Duas delas foram destinadas a uma comunidade em Florianópolis, Santa Catarina, que confecciona enxoval de bebês para moradoras de rua que ficam grávidas, por exemplo. A grande maioria das entidades, porém, confeccionam sacolas ecológicas que vendem nas redes de supermercados de suas regiões. Paralelamente, por mês, a Dudalina compra pelo menos 2 mil dessas sacolas sustentáveis, que buscam substituir as sacolas plásticas, diminuir o lixo criado pela sociedade e, assim, preservar o meio ambiente. “Compramos as sacolas prontas e doamos para os nossos clientes e fornecedores em eventos do grupo”, diz Patricia.

Mas há outras comunidades que dão forma a roupas de cama de hospital, por exemplo. Um grupo de terceira idade produz peças vendidas em bazares e cafés beneficentes buscando arrecadar renda para que possam fazer uma viagem no fim do ano. No Rio de Janeiro, costureiras fazem bolsinhas de patchwork para bancas de jornais. Essas costureiras fecham um ciclo aberto pela dona Adelina, fundadora da camisaria que hoje beneficia seis estados com seus retalhos — fecham, não, dão continuidade. Até agora, segundo a empresa, mais de 32 mil quilos de resíduos têxteis deixaram de ir para o lixo para virar arte.

PROJETO GERAÇÃO DE RENDA EM NÚMEROS
318 entidades beneficiadas no projeto, em 27 cidades distribuídas
por 6 estados
488 horas de treinamento
48 máquinas de costura doadas
462 pessoas capacitadas na técnica do patchwork
2.000 sacolas ecológicas produzidas pelos grupos de Geração de
Renda são compradas por mês pela Dudalina
15.528 kits de retalhos doados para entidades de todo o Brasil
32.609 quilos de resíduos têxteis deixaram de ir para o lixo