Puro-sangue do pampa

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Por Willlians Barros / Fotos Marcelo Curia

Impossível não notar o reverente e singelo conjunto de lápides em um pequeno e bem cuidado jardim no interior da Fazenda Mondesir, a poucos quilômetros da fronteira com o Uruguai. Ali, sob o gramado, repousam as memórias de Ghadeer, Lyphard Swanilda, Cisplatine, Indian Chris, inesquecíveis campeões entre outros que provocam suspiros de saudade nos apaixonados conhecedores de cavalos. Foram os melhores de sua geração nas pistas e reprodutores que geraram filhos e filhas que herdaram suas virtudes, daí a homenagem eterna.

Para além da paixão, a criação de cavalos puro-sangue inglês – ou PSI, como são mais conhecidos – tornouse um grande empreendimento no Brasil. Mesmo que os números sejam guardados em segredo pelos criadores, estima-se que o tamanho do negócio chegue a 2 bilhões de reais por ano. E é aqui, no trecho de 50 quilômetros da BR-153 entre os municípios gaúchos de Bagé e Aceguá, que está a maior concentração de haras de PSI do Brasil – existem mais de duas dezenas deles na região, um mais espetacular que o outro. Fomos até eles a bordo do brioso Land Rover Discovery Sport, com seus 190 cavalos. Nada mais apropriado, em se tratando de puro-sangue inglês.

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Alguém, certa vez, escreveu que esse trecho da BR-153 é mais conhecido como “Vieira Souto gaúcha”, alusão à famosa avenida do bairro carioca de Ipanema, que ostenta os metros quadrados mais caros do país.

A brincadeira tem explicação: grande parte dos proprietários dos haras vive no Rio de Janeiro. E não foi por acaso que vieram de tão longe para criar seus cavalos. Dizem que a topografia do pampa lembra muito a do estado do Kentucky, nos Estados Unidos, um dos maiores produtores de PSI do mundo.

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O solo tem baixíssima acidez, o que contribui para produzir pastagens excelentes. Mas estamos aqui para contemplar a beleza da paisagem e curtir os cavalos correndo soltos pelas coxilhas. No verão, é comum ver as éguas acompanhando os primeiros passos dos seus potrinhos. Lado a lado, mãe e filho começam o passeio lentamente e, depois de algum tempo, arriscam-se num galope. Espaço não falta. E espaço para correr é o melhor presente que se pode dar a um purosangue inglês. Atleta por natureza, ele retribui os criadores de Bagé e Aceguá com vitórias nas pistas. Calcula-se que os animais nascidos por aqui tenham conquistado dois terços dos grandes prêmios corridos no Brasil. Além das excelentes pastagens, da extensão dos haras – em média, 250 hectares – e da topografia, a região também desfruta de um clima propício à criação de PSI. As temperaturas baixas na maior parte do ano impedem a proliferação de bactérias e carrapatos. Os primeiros criadores de fora do Rio Grande do Sul descobriram isso em meados da década de 1970, quando começaram a chegar na região.

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A paixão pelos cavalos não é apanágio dos criadores. Que o diga o simpaticíssimo enfermeiro veterinário Paulo Freitas, de 52 anos, 32 deles dedicados aos equinos, sempre na Fazenda Mondesir, um dos haras mais tradicionais do país. Freitas, mais conhecido por todos como “Paulo Rossi” (o algoz da seleção brasileira na Copa de 1982), já perdeu a conta dos partos que assistiu – em média, 70 por ano. “Quando uma égua está parindo, só o que desejo é que tudo termine bem”, diz. “A gente acompanha todo o processo, desde a cobertura até o nascimento. Por isso, cada potrinho que vem ao mundo me dá uma alegria enorme”, conta.

Certamente, o puro-sangue inglês mais conhecido entre os brasileiros é o que pertenceu a um certo criador britânico, sir William Barnett. Reza a história que em 1806 ele batizou uma potranca com o nome de Mrs. Barnett, para agradar sua amada esposa. Já adulta, a égua ficou prenhe do garanhão Haphazard. Ocorreu que, nesse meio tempo, mrs. Barnett (a esposa) andava pulando a cerca, mostrando que no quesito velocidade era muito mais ligeira que sua homônima de quatro patas.

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Eis que, numa certa manhã da primavera de 1812, Mrs. Barnett (a égua) deu à luz um lindo potrinho. Naquele mesmo dia, mrs. Barnett (a esposa) foge com seu amante, um oficial da marinha britânica. Sir William, que já havia morado em Portugal quando estudante, não teve a menor dúvida: vingou-se da mulher batizando o potro recém-nascido de… Filho da Puta. Foi esse o nome que ele levou ao Stud Book inglês, uma espécie de cartório dos cavalos de corrida. Após uma pesquisa para saber se havia algum homônimo, o nome foi solenemente inscrito no Livro de Ouro, e a partir daí não poderia mais ser mudado em hipótese alguma. Quando descobriram o significado da expressão, já era tarde demais. Curiosamente, foi um excelente cavalo, vencendo algumas das provas mais importantes e tradicionais do turfe inglês. Retirado das corridas em 1818, com várias lesões nas patas, foi destinado à reprodução, gerando muitos campeões atestados pelo excelente pedigree. Filho da Puta foi imortalizado em óleo sobre tela pelo pintor inglês Herring. Provavelmente é a gravura mais vendida em todos os países que conhecem nosso idioma.

Te abanca, no más!

Estamos na Campanha, vivente. Habitat original do clássico gaúcho pilchado, de bombacha, guaiaca (cinturão) e faca na bota, do irresistível aroma de churrasco no ar e do chimarrão passado de mão em mão. Essa linda imensidão verde guarda também outras vocações. Uma delas, recentemente redescoberta, é a vitivinicultura. Atualmente, a região é a segunda maior produtora de vinhos finos do Brasil, atrás apenas da Serra Gaúcha.

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No final do século 19, uma família de imigrantes espanhóis fincou raízes no povoado de Seival, no atual município de Candiota. A localidade já foi palco de histórica batalha, travada em 1836, entre os Farrapos e as tropas do Império, dando origem à República Riograndense. Ali, fundaram a Cantina Marimon, inaugurando a tradição vinícola na região e tornando-se os precursores dos vinhos varietais em solo brasileiro. A qualidade de seus vinhos fez da Marimon provedora regular do Castelo de Pedras Altas, residência do diplomata, político, revolucionário, agropecuarista e escritor Joaquim Francisco de Assis Brasil.

Hoje tombada pelo Patrimônio Histórico estadual, a construção com 44 cômodos, 12 lareiras, torre com ameias e mais de cem anos de história foi erguida como uma declaração de amor à esposa. Seguimos até lá por uma precária e esburacada estrada de terra de 40 quilômetros, partindo da cidade de Pinheiro Machado, e nosso valente Land Rover Discovery mostrou a que veio. Para nossa frustração, as visitas à imponente propriedade estão suspensas, pelo menos até que os numerosos herdeiros de Assis Brasil cheguem a um consenso sobre o destino do castelo e de seu rico acervo. Mas, voltemos à Marimon.

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Após funcionar por quase 80 anos, suas instalações restaram em ruínas até há dez anos, quando toda a área foi adquirida pela Miolo Wines, sediada em Bento Gonçalves. Hoje, a Campanha conta com dois mil hectares de vinhedos, que correspondem a 35% do total de uvas viníferas cultivadas no Brasil. Uma das maiores preocupações dos produtores é com a sustentabilidade, aliando paisagem, inovações tecnológicas e preservação do bioma pampa. Ao todo, a região da Campanha possui 180 produtores envolvidos e 17 vinícolas, segundo a Associação dos Produtores de Vinhos Finos da Campanha Gaúcha. Com produção de 12 milhões de litros anuais, a meta é chegar aos 20 milhões de litros dentro de cinco anos. Outro objetivo é buscar, até o final deste ano, o selo de Indicação Geográfica para os vinhos da Campanha.

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São da família Miolo os maiores vinhedos da Campanha. A propriedade leva o pomposo nome de Seival Estate. Caminhando pelos parreirais já carregados, encontramos algumas das tradicionais castas portuguesas, como alvarinho e touriga nacional. A cuidar delas, está o enólogo lusitano Miguel Almeida, figura ímpar, que, ao falar, mistura “bá!” com “pá” sem qualquer “cerimónia”. Um de seus orgulhos é o Sesmarias 2011, resultado de um corte de seis castas tintas colhidas no ponto máximo de maturação, e que, depois de duas fermentações espontâneas, permaneceu por 16 meses em barricas novas de carvalho francês. Ai, Jesus! Vai que é tua!

Vizinho de cerca da Seival Estate, o narrador esportivo Galvão Bueno também se rendeu aos encantos da Campanha, estabelecendo ali a Bellavista Estate, “o perfeito terroir do paralelo 31, a mesma latitude dos vinhos produzidos na Argentina, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul”, segundo ele. Seus primeiros produtos foram o tinto Bueno Paralelo 31 e o espumante Bueno Cuvée Prestige, ambos de sucesso imediato.

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Além das pastagens e dos vinhedos, os cenários ondulantes da Campanha estão ganhando a companhia das oliveiras. No vizinho município de Pinheiro Machado é possível avistar – e visitar – as 90 mil árvores repletas de azeitonas de todos os tipos, espalhadas ao longo de 350 hectares. Passear entre elas é uma experiência bucólica divertida. Somos tentados, então, a provar seus frutos diretamente do pé. Péssima ideia. O sabor de uma azeitona in natura, colhida na hora, é absolutamente intragável, de tão amarga. Melhor mesmo é ficar com o excelente azeite extra-virgem produzido ali, extraído por meio de processos mecânicos em equipamentos de ponta. O projeto é do empresário paulista Luiz Eduardo Batalha, que iniciou o plantio em 2010 e já está na segunda safra.

De volta a Bagé, pudemos observar com atenção a beleza de suas centenas de casarões e prédios históricos, marca registrada do município. Conhecida como Rainha da Fronteira, não por acaso, a cidade foi escolhida, em 2012, para receber a equipe do diretor de cinema Jayme Monjardim, que lá ergueu a cidade cenográfica de Santa Fé para as filmagens de O tempo e o vento, imortal obra do escritor Erico Verissimo.

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Ao final das gravações, os cenários foram mantidos e transformados em atrativo turístico-literário. Mesmo precisando de alguma manutenção, é um conjunto arquitetônico capaz de encher os olhos e relembrar a saga da família Terra Cambará. Com um pouco de imaginação é possível até visualizar os místicos personagens Ana Terra, o índio Pedro Missioneiro, Bibiana e um certo Capitão Rodrigo.

Pradarias, cavalos, colinas, vinho, churrasco, um bom chimarrão e um povo que não poderia ser mais acolhedor e hospitaleiro. Assim é a Campanha Gaúcha. Como diria o analista de Bagé, mais bonita que laranja de amostra. Quem a visita, volta feliz da vida. Mais faceiro que mosca em tampa de xarope!

Mansão ambulante

Durante três dias, o fotógrafo Marcelo Curia e eu percorremos cerca de 500 quilômetros pelas estradas que entrecortam a Campanha Gaúcha a bordo do Discovery Sport, versão diesel. De saída, chamou minha atenção o baixíssimo nível de ruído e a mínima trepidação, mesmo em um trecho absurdamente esburacado e cheio de “costelas”. Sua capacidade de transpor obstáculos é surpreendente.

A dirigibilidade mostrou-se precisa e segura. O requinte do acabamento interno e os itens de conveniência nos deram a sensação de estarmos dentro de um palacete sobre quatro rodas. Por onde passávamos, só ouvíamos elogios: “que linda essa sua caminhonete!”, diziam. Em certo momento, no entanto, essa beleza causou certo embaraço. Estacionamos diante de um modesto restaurante, em Aceguá, na fronteira com o Uruguai, para almoçar. Ao me ver colocando aquele carrão na vaga, o proprietário não titubeou em aumentar o preço do buffet. Era R$23 para os mortais comuns. Mas, para nós, que desembarcamos daquela nave espacial, ele quis cobrar R$33. Não ficamos lá, claro. Comemos no vizinho, que era mais em conta, e a comida muito melhor.