Porsche 356 SC – Um caso de paixão

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Por César Cini | Fotos Augusto Tomasi

Quando comecei a adquirir carros especiais e raros, há uns 8 anos, minhas iniciativas eram mais voltadas para os chamados “carros populares” de épocas passadas, principalmente dos tempos que se seguiram à Segunda Guerra, quando a falta de recursos em um planeta exaurido pelas batalhas colocou a inventividade para trabalhar e produziu carros pequenos e leves com design muito interessante.

Para resumir, esse início da minha coleção era só uma coletânea de pequenos carros italianos — muito simpáticos — e alguns “microcarros” alemães, entre eles modelos muito curiosos. Junto à estes vieram aos poucos outros raros Volkswagen alemães. Mas, de verdade, não havia nenhum daqueles nomes que fazem os olhos brilharem com intensidade: Cadillac, Ferrari,Maserati, Porsche…

Estava tranquilo nas minhas buscas de colecionáveis até o dia em que conheci Pebble Beach, na Califórnia, e todos os encantos daquela semana automotiva que considero hoje o maior “concentrado” de veículos raros, novos e antigos,muita história e emoção em movimento, tudo isso reunido no mesmo local durante loucos e exaustivos sete dias.

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Em Pebble Beach encontrei um grupo de brasileiros apaixonados pela marca Porsche.
A sonoridade do nome da marca estava constantemente no ar.
No ano seguinte a esse primeiro impacto em Pebble e o olhar para o mundo Porsche, fui novamente à semana automobilística californiana e o grupo de porschistas brasileiros era ainda maior.
Prossegui com eles numa espécie de “peregrinação” pelos lugares adorados por essa turma.
Começamos em São Francisco, visitando comerciantes de peças, desmanches (só de Porsche, obviamente),comerciantes de automóveis, mecânicos especializados,num roteiro que se encerrava em Los Angeles.
Lá pelo meio da viagem havia tomado a decisão interna de comprar um Porsche modelo 356, de longe o mais apreciado pelo grupo. Meses antes, havia feito algumas pesquisas na internet e encontrado algumas ofertas, sempre na região de Los Angeles.

Depois que nossa peregrinação acabasse eu me dedicaria a ver os modelos dos anúncios selecionados ainda no Brasil.
Foi então que, visitando um dos habituais comerciantes tido como programa obrigatório pelo grupo, me chamaram para ver um carro que estava embaixo de uma lona.
Segundo o vendedor, estava precisando de uma pintura, mas ao mesmo tempo era todo original e muito íntegro.
A tentação final: me disse que para fazer negócio naquele dia, era possível ter um pequeno desconto.
Consultei a pesquisa que havia efetuado e lá estava o anúncio deste carro e suas fotografias.

Era um dos três que havia selecionado. Coincidência? Destino?
Diante de toda aquela corte de admiradores do Porsche 356 e com certeza de que se tratava de um carro em bom estado,não pude resistir: comprei.
Depois de quatro meses o carro estava no Brasil e já rumando para o interior de São Paulo,para as mãos do maior especialista no assunto do Brasil,o hoje amigo Guenter Henning Sandtfoss, ou simplesmente Henning.

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O RESTAURO

Logo ao chegar na oficina, em Itu (SP), o carro foi inteiramente desmontado e lixado.
E realmente sua aparência de integridade vislumbrada em LA se confirmava.
“Estava com o grupo quando Cini comprou o carro. Vi que era bem sólido, bem alinhado em suas portas e capô. A base estava muito boa e quando removemos a tinta foi uma grata surpresa”, relembra Henning.
“Uma restauração conta com cinco etapas, basicamente,que eu faço junto com uma pequena equipe escolhida a dedo. No início, um bom funileiro que foca nos pequenos (ou grandes) defeitos e em seguida vem com o trabalho de pintura. Depois, um bom montador, um bom mecânico e um igualmente bom eletricista.

Os detalhes finais ficam a cargo do tapeceiro, que faz o interior e os vidros.
Isso tudo com o meu olhar diário em cima de detalhes e técnicas que trazem o modelo de volta aos velhos tempos.
No caso do Porsche do Cini, todas as características originais foram mantidas, o que dá ainda mais prazer no restauro, pois a história e o design são honrados”, explica Henning.

E ele continua: “Conheci nos Estados Unidos, nessas peregrinações dos apaixonados pela marca Porsche, um senhor de mais de oitenta anos que ainda guiava seu 356 desde o ano de seu lançamento,na década de 1960.
O mesmo carro durante toda sua vida.
Naquela época, o Porsche dele estava com mais de 1 milhão de quilômetros andados, bem cuidado, com a desenvoltura de um carro novo! Que outra marca poderia contar a mesma história?”, pergunta Henning.

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SIMPLICIDADE E PRECISÃO: A FÓRMULA

O modelo 356 foi o primeiro construído em série pela famosa empresa alemã.
Marcou a história do automobilismo e de muitos de seus adoradores. “Gosto de brincar que o Porsche 356 é um fusca de casaca”, provoca Henning.

“Pois esse primeiro projeto da empresa guarda uma semelhança muito grande de proporções e tecnologia com o Volkswagen popular alemão. Que, aliás, eram da mesma época, nasceram sob o mesmo conceito. Como se ele fosse um fusca anabolizado,com muito mais potência e para isso com uma carroceria aerodinâmica. Seu interior também guardou, ao longo das décadas, características só dele. A chave sempre na mesma posição, o pequeno porta-malas, um conceito e o design que atravessa o tempo com sua flexibilidade.

Quando digo flexibilidade, digo que o carro é tão icônico que você pode ir trabalhar com ele, à noite ir a uma festa de gala e nos finais de semana para as pistas. Com a mesma aura de perfeição e charme”, sintetiza Henning. A produção do icônico modelo 356 pode ser dividida em três fases no tempo.

Existem os primeiros, chamados de Pré A (1950 a 1955), de para-choque e farol mais baixos e vidros menores.
Estes foram sucedidos pelos A (1955 a 1959), de 75hp. Quando mais tarde vieram os BT5 (1960 a 1962), estes ganharam o para-choque e os faróis mais altos.

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Numa constante evolução, a versão final e mais aclamada deste Porsche vem a ser o modelo C (1962 a 1965), que se diferencia por ser mais potente e, sobretudo, por estar equipado com freio a disco nas quatro rodas, o que melhorava muito sua capacidade de frenagem.

Este modelo também ganhou duas grades na saída do motor e os vidros aumentaram consideravelmente.
Nesse momento, o motor ainda era de 75hp e, em sua versão mais elaborada, tinha 1582cc e era equipado com dois carburadores Solex 40 PJJ-4, que chegava aos 5800 rpm, valor bastante interessante para um veículo que pesava pouco mais de 900 kg.

Era a versão esportiva da época e um modelo que marcou o cenário das competições.
O SC que mostramos nesta matéria é a ultima versão do 356, realmente especial, pois além de tudo ganhou um motor de 95hp.

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PELAS ESTRADAS DO SUL

Hoje meu modelo 356 SC circula pelas estradas sinuosas da Serra Gaúcha. É um dos poucos que existem no mundo, pois um levantamento recente declarou que não existem mais de 400 como ele.

É um prazer muito grande dirigi-lo.

Mas procuro preservá-lo, pois é a peça mais importante da minha coleção.
Meu próximo objetivo é um modelo mais novo, para circular no dia a dia, pois, como disse, sua performance,sua leveza e seu design são encantadores.

Para isso estou contando, mais uma vez, com meu amigo Henning, que hoje em dia administra restauros e acha tesouros.

Quase sempre Porsche.