Pecuária, turismo e conservação: de mãos dadas no Pantanal

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Por Maura Campanili

Conhecida internacionalmente como um dos principais destinos de turismo ecológico brasileiro, a Estância Caiman, localizada no município de Miranda, Pantanal do Mato Grosso do Sul, é também uma lucrativa propriedade pecuária, onde a produção de gado convive pacificamente com turistas do mundo todo, áreas de preservação e pesquisa ambientais, incluindo o projeto Onçafari, destinado a conservar, pesquisar e mostrar ao mundo a onçapintada (Panthera onca), ainda vista por muitos como o terror dos pecuaristas da região. Um dos objetivos do ambientalista Roberto Klabin, o empresário por trás desse ambicioso projeto, é mostrar que pecuária e conservação andam de mãos dadas e são interdependentes no Pantanal.

Filho do empresário Samuel Klabin, um dos sócios da Klabin Irmãos & Cia, Roberto passou muitas de suas férias da infância e adolescência na Miranda Estância, o imenso latifúndio pantaneiro da família, onde descobriu a paisagem arrebatadora da região e virou ambientalista. Conta que, quando era criança, a caça esportiva ainda era uma tradição na fazenda. Ganhou sua primeira arma aos 13 anos. No entanto, quando tinha 15 anos, durante uma caçada com amigos, acabaram atingindo uma fêmea prenhe de porco-do-mato, fato que o chocou. “Depois disso, caçada nunca mais. Ver aquela cena mudou minha perspectiva de vida”, disse.

Por isso, quando recebeu sua parte na divisão da propriedade, em 1985, já tinha planos de criar um hotel de selva no local que ajudasse a manter a rica biodiversidade do Pantanal, composta por pelo menos 3.500 espécies de plantas, 550 de aves, 124 de mamíferos, 80 de répteis, 60 de anfíbios e 260 espécies de peixes de água doce. “Quando recebi a minha parte da Miranda Estância, minha ideia era a de tentar estabelecer um novo modelo econômico, ambiental e social que não fosse unicamente apoiado na pecuária extensiva de corte. Pensei num modelo que se autoalimentasse, baseado no desenvolvimento de pesquisas sobre o estado do meio ambiente na propriedade, com estudos contínuos que avaliassem periodicamente a capacidade de suporte da fazenda em relação ao gado lá instalado, pesquisas botânicas e sobre a fauna. O resultado das pesquisas alimentaria de informação a atividade pecuária na fazenda, redirecionando e minimizando seus impactos sobre o meio ambiente local”, disse.

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Ao implantar o Refúgio Ecológico Caiman na fazenda de 53 mil hectares (530 quilômetros quadrados), uma das preocupações de Roberto era estudar a problemática de predação do gado pelas onças, o que seria fundamental para mostrar como a questão econômica e a biodiversidade local, com um tratamento mais esclarecido, poderiam conviver e ainda atrair visitantes. Em seu modelo, a pecuária seria beneficiada por um conhecimento contínuo, desenvolvido para dar conta de sua relação com o meio ambiente e aumentar sua produtividade.

Desde então, os estudos realizados na Caiman têm gerado muitas teses de pós-graduação e vários projetos de conservação que ajudam a preservar, além da onça-pintada, espécies como a arara-azul e o papagaio-verdadeiro. Além disso, a fazenda abriga a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Dona Aracy, com 5,6 mil hectares, que ocupa 10% da propriedade.

“A pecuária para mim é consequência do uso da terra e o esteio da economia pantaneira. Sem ela, o Pantanal não existiria mais como o conhecemos. A pecuária é permanente na fazenda e, graças a ela, temos áreas conservadas e abertas, onde é possível enxergar a fauna nativa. São as grandes fazendas que fazem com que o Pantanal, depois de 200 anos de ocupação, continue com baixa densidade de pessoas e uma natureza exuberante. É um lugar privado e pouco acessível”, diz Roberto.

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Atividade tradicional

A pecuária é a principal atividade econômica do Pantanal e acompanhou o processo de ocupação da região desde o fim do ciclo do ouro no século 19. A atividade faz parte da paisagem e está condicionada aos pulsos de inundação e sazonalidade do regime das águas que caracteriza o bioma. São 3,2 milhões de cabeças de gado manejados de maneira que, quando é época de cheia, os animais são levados para as partes mais altas, voltando nos períodos de seca.

Mesmo que nos últimos anos haja indicação de mudanças preocupantes – com a introdução de práticas como a substituição de pastagens nativas por espécies exóticas, a retirada da vegetação ciliar e o uso de biocidas –, o modelo extensivo de produção pecuária adotado na região é um dos principais fatores que tornaram o Pantanal um dos ambientes mais conservados do país. Esse sistema pressupõe grandes propriedades e, por ocupar a planície natural, não requer desmatamento. Atualmente, 86% do Pantanal tem cobertura vegetal preservada. Além disso, para muitos especialistas, sem o gado não haveria o Pantanal, pelo menos não da forma como o conhecemos hoje. Pesquisas na fazenda da Embrapa Pantanal, em Corumbá, mostraram que, com a retirada do gado, a massa de gramíneas cresce, aumentando o risco de fogo.

Segundo Roberto, a pecuária é parte fundamental da paisagem que encanta os turistas na Caiman. Desde 2006, porém, as 35 mil cabeças de gado da propriedade não pertencem mais a Klabin, mas ao empresário André Esteves, que arrenda a fazenda. Pelo arranjo, a Caiman Agropecuária é proprietária da fazenda, mas a manutenção da estrutura é dividida entre a RK Hotéis (nome jurídico do Refúgio Ecológico Caiman) e pela Agropecuária Santana do Deserto, de Esteves. Mas Roberto Klabin continua pecuarista e mantém um plantel de 12 mil cabeças em outras propriedades na região, que formam o complexo Serra Negra e Nova Espanha. Além do espaço, as três empresas compartilham, na Caiman, o administrador Cezar Queiroz, pessoa de confiança de Klabin, comprometido com a filosofia de convivência do turismo com a produção de gado.

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Onçafari

Essa filosofia tem seu ponto alto no Onçafari, projeto piloto de rastreamento de onças-pintadas iniciado em 2010. O projeto é idealizado e gerido por Mario Haberfeld, ex-automobilista que, depois de abandonar as pistas de corrida, resolveu se dedicar à conservação ambiental. A inspiração para o projeto veio dos safáris para observação de leopardos na Reserva Sabi Sand, na África do Sul, um complexo turístico semelhante ao da Caiman, onde os animais são habituados à presença humana dentro de veículos, para aumentar sua tolerância ao turismo.

Haberfeld acredita que a observação pode não apenas proteger as onças como trazer melhoria de qualidade de vida na região. Sua ideia é que a atividade se torne tradicional no Pantanal, como a observação de gorilas em Uganda, tigres na Índia, leões na África do Sul e ursos polares no Canadá. Seu objetivo é expandir o projeto para outras fazendas. Na Caiman, foram identificadas 14 onças, dois machos e 12 fêmeas. Segundo Klabin, as onças podem ser um trunfo para os fazendeiros, que podem fazer o caminho inverso ao que ele fez em relação ao gado e concessionar as terras para terceiros que vislumbrem atrativos turísticos e beleza cênica.

“Para os investidores da área de ecoturismo, o fato de não ter que desembolsar dinheiro para comprar terras já seria um grande atrativo. Para o proprietário, esse modelo traria mais desenvolvimento, receita e valorização para sua terra, sem a necessidade de tirar o gado da propriedade. São terras aptas à pecuária sustentável, que, por sua vez, garante a unidade de cultura pantaneira, um dos atrativos que os turistas desejarão conhecer”, acredita o empresário.

Embora a predação do gado continue, a renda obtida com o turismo e a valorização da terra compensam as eventuais perdas de alguns bois. Segundo dados do Projeto Onçafari, a alimentação das onças pintadas é tão variada que ela consegue comer espécies de todos os tipos e em diferentes situações.

São 85 espécies de presas naturais documentadas que variam conforme a região e a época do ano. Na seca, normalmente os predadores comem animais maiores, provavelmente porque eles têm que ficar perto de onde tem água e tornam-se presas mais fáceis. Na época das cheias do Pantanal, os animais selvagens se concentram em áreas menores e mais altas, sendo mais fácil para as onças capturá-los. Por isso estudos mostram que a predação de gado diminui na época. Da mesma forma, estudos mostram que a predação de gado é menor em áreas com maior quantidade de presas naturais e maior onde há caça de animais selvagens. Ou seja, onde há maior conservação ambiental, há mais segurança para o gado.

Um dos fundadores da SOS Mata Atlântica, da qual foi presidente por 22 anos, até junho de 2003, Roberto é hoje vicepresidente para assuntos do Mar na organização. Além disso, em 2009, fundou e é presidente da SOS Pantanal. Embora tenha construído uma carreira de sucesso na área empresarial, sobretudo como presidente da fabricante de embalagens Dixie Lalekla – que depois se juntou à gigante do setor Toga, tornando-se Dixie Toga –, em 2005 Klabin vendeu a empresa e resolveu se dedicar em tempo integral às suas atividades de ambientalista e à Caiman.

Na opinião do empresário, no futuro, se experiências como a da Caiman vingarem, o valor das terras pantaneiras aumentarão, pois além do indicador referente à quantidade de gado por ano/hectare, levará em conta as suas outras aptidões. “Ambientes como o Pantanal, desde que bem manejados, estarão em alta demanda em um futuro onde o mundo vai precisar de ‘santuários naturais’ sustentáveis.” Conforme Roberto, na Caiman, “faço dinheiro com o gado, mas também tenho que tomar cuidado para que a propriedade fique cuidada, para garantir o retorno da terra: fazer a manutenção, arrumar cercas e infraestrutura, como as estradas”.

Criar um modelo de sucesso na Caiman tem uma importância pessoal grande para o empresário, pois aumenta as chances de sobrevivência do empreendimento no momento em que a propriedade for passada para a próxima geração. A excelência do hotel já foi reconhecida por meio de prêmios de ecoturismo, como o Global Ecosphere Retreat Certification, da Zeitz Foundation, em 2011, que também certificou a Caiman como Ecopousada – destino de ecoturismo com filosofia de sustentabilidade. O grande diferencial é que a Zeitz não certifica o hotel, mas o destino, o que pressupõe a integração com a fazenda e inclui também a cultura local, como o gado, o tereré, o peão e suas tralhas. No caso da Caiman, significa, ainda, que empresas diferentes (Caiman Agropecuária, RK Hotéis e Agropecuária Santana do Deserto) têm que se comunicar para um fim comum, que é a busca do equilíbrio entre as diversas atividades realizadas na fazenda.