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O caçador de missões Robert Wong, o “headhunter” que orienta executivos frustrados

Robert Wong

Robert Wong tem 58 anos e é um dos mais renomados “headhunters” e um dos mais bem pagos palestrantes do Brasil. Está acostumado a trabalhar com altos executivos das maiores empresas nacionais e mundiais, com pessoas que não raro ganham mais ou bem mais que R$ 1 milhão por ano. Tem no fichário de sua empresa de consultoria, enfim, um rol de carreiras bem-sucedidas. No entanto, há um fato que segue incomodando Robert Wong: a grande maioria dos executivos não está satisfeita com sua profissão. Mesmo médicos e advogados não parecem ter encontrado sua verdadeira vocação e, apesar dos ótimos salários, sofrem por isso. “Eles estão presos em seus empregos”, diz Wong.

Wong, um caça-talentos que ficou famoso por teses como a de que “o sucesso está no equilíbrio”, título de um de seus livros, fala no estilo “PowerPoint” que é típico do setor, com frases de efeito, fábulas pedagógicas e diagramas coloridos. Com pulseira artesanal despontando sob a manga do terno, movimenta o laptop de última geração e, depois de reclamar algumas vezes do Windows Vista, exibe um portfolio de arquivos com as lições que aprendeu e formulou ao longo de 28 anos de carreira. A principal delas se apresenta na forma de uma pirâmide em cinco níveis, que, de baixo para cima, são os seguintes: emprego, profissão, carreira, vocação e missão. Este último, traduz, é a “realização plena de seu potencial como ser humano”. Em seus cálculos, apenas 2% das pessoas chegaram ao topo dessa pirâmide.

Para ele, os quatro primeiros níveis dizem respeito a objetivos profissionais, às garantias de sobrevivência, segurança, sociabilidade e status. Neles, o indivíduo está voltado para si mesmo. No nível mais alto, porém, atingiu liberdade e independência, e já não precisa pensar naquelas garantias. Wong, que
gosta de etimologia, lembra que a palavra “missão” vem de “mitere”, “envio”, e cita Bill Gates como exemplo de um executivo atual que “está na missão dele”, especialmente depois da criação de sua fundação de apoio à educação e filantropia. Os demais, segundo Wong, não estão subindo na carreira, estão apenas “preparando sua próxima frustração” e, portanto, “ficam se comparando o tempo todo”, enredados em egocentrismo, medo e inércia.

Ele usa um termo chinês, “chi”, que significa “energia” ou “alma”, para mostrar como isso acontece não apenas com indivíduos, mas também com as empresas. “Há empresas que têm alma, que voam, que você logo vê que têm energia, como o Google ou, no Brasil, o Bradesco”, diz. São empresas que não ficam na “zona de conforto”, acomodadas em seu próprio sucesso, e estão em constante reinvenção. Assim está a maioria dos diretores de empresas: confortáveis em sua situação financeira e social, mas na verdade frustrados, distantes de seu próprio “âmago”. Recorrendo à etimologia mais uma vez, Wong diz que eles não descobriram sua vocação porque “não ouvem sua voz interior”. Daí a crise que afeta tantos profissionais na faixa dos 40 anos, diz Wong, para quem essa faixa pode ir na verdade dos 32 aos 47 anos. Nessa idade, “se você acha que é crise, já vira crise”, porque a maturidade o obriga a refletir sobre sua carreira e o sujeito se descobre perdido, desorientado. Então há três tipos de reação ao alerta interior: ou ele zomba dessa voz, ou tenta falar mais alto do que ela, ou então ela o chama, em geral na forma de um acidente ou doença. O principal motivo, segundo Wong, é o medo. “Mais de 90% dos nossos medos são imaginários, irreais”, acrescenta. “É preciso superá-los para usar nossos talentos”. Em seu conceito, o maior pecado é esse: não usar as habilidades que se tem. Nem sempre a etimologia usada por Wong corresponde à das gramáticas. Ele diz que “orientar-se” tem a ver com a procura do Oriente, desde os tempos de Marco Polo, e especula que a expressão “buscar o norte” se deve à América do Norte, aos Estados Unidos, quando passaram a ser referência mundial de sucesso. Wong, que nasceu na China, da qual seu pai, um general nacionalista, precisou sair por perseguição comunista, e cuja família se dividiu entre Estados Unidos e Brasil, diz ser mais que um “trilíngüe”, é um “tricultural”. Como tal é capaz de equilibrar as virtudes de cada cultura. Em seu mapa-mundi os orientais se destacam pela inteligência operacional, resultado de uma cultura de perseverança, disciplina, trabalho duro; os americanos e europeus ocidentais possuem habilidade lógica, raciocínio rápido; e os latino-americanos se destacam pelo emocional, pela compaixão, pelo apego às artes e aos esportes. Wong receitou para ele mesmo a fusão dessas virtudes – e, claro, a receita para os outros. Mas e o Brasil, mr. Wong? O que sua experiência no contato com os executivos brasileiros mostra? Ele acha que o problema central do brasileiro é a “baixa auto-estima”; que o brasileiro, apesar de sua cultura sentimental e de seus momentos de torcedor, é educado sob muitos “nãos”: “não vale a pena”, “não tem jeito”, “homem não chora”. Wong lembra que oito dos dez mandamentos bíblicos contêm “não” e afirma que no Brasil até o “sim” é dito de forma negativa: “pois não”. Vê essa “síndrome da negatividade” inclusive em expressões como “não posso esquecer”, usada em lugar de “preciso lembrar”. Outro problema, diz, é a sensação de que lucro é pecado, o que torna a ambição algo a ser disfarçado.

Nessa capa de “mitos, dogmas, medos e mentiras”, que não permite que o profissional descubra seu potencial, Wong também cita a esperança. “Esperança já implica a idéia de esperar, de não fazer”, explica. E o brasileiro teria por isso uma dificuldade operacional, em oposição aos asiáticos. “Não se vive o presente. Há muito desperdício de energia”, diz, acrescentando mais uma de suas fórmulas verbais: “Meditar, por exemplo, não é ficar parado, pensando na vida. Meditar é estar no meio da ação, é estar concentrado no que se está fazendo”. O brasileiro é bom em propaganda, música, futebol – mas mesmo nessas áreas poderia ir mais longe, obtendo mais sucesso econômico com entretenimento e turismo. Ao contrário da auto-imagem que o Brasil cultua, o que Wong vê é que o brasileiro não é tão ousado e criativo assim. “O brasileiro não gosta de mudar”, afirma. “Veja que ele só sai de casa quando casa”. Uma das razões, segundo ele, pode ser a ausência de quatro estações no clima nacional. Outra talvez seja a ausência no passado de uma guerra ou revolução que “unisse o povo” (sic). Uma terceira seguramente é a qualidade da educação. “Temos no Brasil essa mania de querer sempre tirar vantagem”. Para ele, o Brasil é mais um país do que uma nação, pois lhe falta “uma causa”. Como assim? “A China tem uma causa, a de ser uma potência econômica. Os Estados Unidos têm uma causa, a de vender o ‘american way of life’ para o mundo”.

Mas qual seria a causa do Brasil? “Talvez seja a de querer que este seja o melhor lugar do mundo para morar”, responde, refe-rindo-se ao modo caloroso e informal como o brasileiro se comporta. Diante da pergunta sobre se o problema não seria justamente essa confusão entre a simpatia do cotidiano e o desrespeito ao outro, traduzido na lei do “levar vantagem”, ele volta a apontar a importância da educação. E não existe também uma confusão entre ter auto-estima e se julgar “o melhor do planeta” em tantas coisas? Wong acha que, além da educação, o antídoto é reagir contra o “brain drain”, a perda de talentos para o exterior, e começar a valorizar qualidades concretas e práticas do brasileiro, não discursos. Ele ilustra a necessidade de pragmatismo e auto-estima com as perguntas que faz a si mesmo quando entrevista um candidato a emprego. São três: 1) Eu compraria um carro usado dele? 2) Eu o apresentaria a meus amigos e familiares? 3) Se eu estivesse com ele num elevador e ele pifasse por duas ou três horas, como seria passar esse tempo ao seu lado? Segundo Wong, as respostas a essas perguntas definem não apenas a competência de uma pessoa, mas também se ela é confiável, se ela sabe trabalhar em equipe, se ela não é egoísta ou carreirista. E por isso Wong pode dar à empresa a garantia de que, se aquele executivo contratado por meio de sua consultoria não atender às expectativas no prazo de um ano, ele o substituirá sem custos. “Os bons executivos têm autoconhecimento”. Wong conta com orgulho a ocasião em que, aos 18 anos, estudante da Poli (Escola Politécnica da Universidade de São Paulo), decidiu dar aulas em uma escola de idiomas para melhorar o orçamento. E, quando o apresentaram aos alunos como professor de inglês, ele corrigiu: “I don’t teach English. I teach people”. Sua carreira como palestrante e “headhunter”, capaz de embalar conceitos em fórmulas fáceis de decorar, começava ali. Outro de seus trunfos é a ascendência chinesa, que lhe permite fazer críticas à mentalidade ocidental: “O Ocidente só trabalha com dualidades. As pessoas julgam o tempo todo. É sempre ‘ganhou ou perdeu’, e o emprego e o casamento parecem ser dois mundos que se opõem”. Por isso sua receita de equilíbrio agrada aos ouvidos empresariais. “Tudo deve ser moderado, nada exagerado” poderia ser seu lema.

“É preciso combinar intelecto, instinto e intuição”, costuma dizer em suas palestras, que o incluíram entre os 100 mais requisitados do setor (além de ser um dos 200 “headhunters” mais importantes do mundo escolhidos pela revista The Economist). Ou então ele ataca de siglas, como “I.D.A.S.”, explicando que intenção, decisão e ação são importantes, mas que sustentação também é. “Se mente e corpo trabalharem integradas em prol desse projeto”, diz em um dos artigos que publica em jornais de economia, “o universo só conspirará a seu favor”. Que ele conspirou a favor de Robert Wong não há a menor dúvida.