Land Rover | Discovery 1

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Lançado para preencher uma lacuna no portfólio de produtos da Land Rover, o Discovery revolucionou o mercado de utilitários esportivos

Por Eduardo Rocha

A história do Land Rover Discovery começa no início dos anos 1980, após um período de cerca de dez anos nos quais a British Leyland, sempre bem-sucedida na produção de veículos off-road, negligenciou a continuidade do desenvolvimento de produtos Land Rover e Range Rover, sem grandes evoluções nesse tempo.

Enquanto isso, empresas como Toyota e Nissan estavam trabalhando duro no desenvolvimento de seus produtos, sendo que a Toyota teve grande êxito com seu Landcruiser. Na sequência, vinham Daihatsu e Suzuki, com boas alternativas de baixo custo.

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Era nítido que a engenharia da British Leyland caminhava no sentido errado e o indicador eram os resultados de vendas. Com a chegada de Michael Edwardes como CEO da empresa em 1977 e a autonomia da marca Land Rover dentro da British Leyland, surgia uma luz no fim do túnel; mas, em 1979, a segunda crise do petróleo atingiu forte a Land Rover. Naquele ano os Land Rover Série III recebiam um motor V8 e os Range Rover ganhavam uma versão 4 portas e mais luxo interno. Um, bem espartano, e o outro, cada vez mais luxuoso. Criou-se então um nicho intermediário que precisava ser preenchido.

Era premente a necessidade de se criar um modelo intermediário para fazer frente aos novatos Mitsubishi Shogun (Pajero) e Isuzu Trooper

Projeto Jay

Os trabalhos na nova linha de produtos tiveram início em 1986, utilizando como base o conjunto motriz dos Range Rover, mas com especificação e acabamentos mais simples para posicioná-lo de acordo com as ambições por esse mercado intermediário, onde as montadoras japonesas avançavam a passos largos.

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Com o enorme sucesso do Range Rover, introduzido no mercado norte-americano, os executivos da Rover tiveram o fôlego e a confiança necessários para dar início à montagem do Projeto Jay.

Em 1988 o design já estava praticamente definido e os conjuntos de motor e transmissão também. Seriam o 3.5 V8 com dois carburadores SU e o novíssimo Land Rover 200Tdi, em substituição ao VM Turbodiesel utilizado nos Range Rover. O câmbio era o LT77, também dos Range Rover. Sua missão: acabar com a vantagem alcançada pelos japoneses no mercado de utilitários esportivos (ainda não se usava essa terminologia na época).

Para viabilizar esse investimento, a Land Rover (agora uma marca e não mais um modelo) encerrou as atividades de treze fábricas pelo mundo, concentrando toda a produção em uma megaplanta na cidade inglesa de Solihull. O antigo Land Rover Série III passou a se chamar Defender e o novo modelo, que teve os nomes Prairie Rover e Highlander cogitados, acaba por se chamar Discovery.

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Nasce um novo Land Rover

Quando fez sua primeira aparição no Salão de Frankfurt, o Discovery, primeiro novo modelo em vinte anos, causou euforia. Ou seja, a sobrevivência da marca no século 21 estava garantida e com munição suficiente para conter a invasão japonesa no mercado mundial. “É um veículo de lazer não voltado para o consumidor de luxo, para isso temos o Range Rover, mas, sim, para aqueles em franca ascenção financeira”, disse Chris Woodark, diretor comercial da marca.

Inicialmente foi oferecido somente na configuração 3 portas, para preservar o Range Rover. Tinha muito estilo, com grafismos modernos nas faixas adesivas que remetiam à aventura, janelinhas alpinas (as laterais superiores na curva do teto) e um interior arrojado, primorosamente desenhado pelo Conran Design Group, do famoso Sir Terence Conran. O interior fazia uso de cores suaves, plásticos macios ao toque e uma leva de itens para agradar a família moderna.O briefing era criar um veículo que fosse um acessório ao estilo de vida. As inovações foram muitas e até um engenheiro japonês foi flagrado (e convidado a se retirar) do Frankfurt Motor Show, por estar raspando amostras das texturas dos plásticos do Discovery.

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Quando a revista Autocar conseguiu um modelo para testes e pôde compará-lo ao Isuzu Trooper e Misubishi Shogun, deu o veredito fatal aos japoneses: “Mais rápido, mais econômico, com melhor dirigibilidade e equilíbrio graças à tração nas 4 permanente. Seu interior está muito à frente de seus concorrentes. A única dificuldade que a Land Rover deverá enfrentar é que as pessoas estão se acostumando às 5 portas, ainda não disponível no modelo”.

Essa história continua até os dias de hoje, às vésperas do lançamento do Discovery 5 (se é que vai se chamar assim). Mas vamos falar sobre dois exemplares preservadíssimos do modelo 3 portas.

Hoje no Brasil existem (acredito) menos de dez unidades desse charmoso modelo da Land Rover. Eu conheço apenas sete deles. Esses dois exemplares 100% originais aqui apresentados, um vermelho restaurado (não na cor original), outro verde, um raro cinza sólido (Pembroke Grey) com interior azul, todos aqui em São Paulo, e mais dois no Paraná. Os dois retratados em nossa matéria têm características diferentes no que diz respeito ao seu uso. O branco, pronto para o fora de estrada, com pneus All Terrain, rodas de aço e bancos de tecido, mas com incríveis capas de banco originais Land Rover, bastante raras de se encontrar. Os vidros dianteiros são acionados manualmente e os traseiros apenas basculantes. Além disso, um curioso porta objetos, feito de tecido.

Já o verde teve seu interior de couro refeito à perfeição com uma tonalidade mostarda que harmonizou perfeitamente com o bege dos plásticos. Tem rodas de liga originais e pneus radiais com mais vocação para o asfalto. Os vidros dianteiros são elétricos e os traseiros basculantes.

O carro é muito macio e confortável, e também muito estável e silencioso. O motor 200Tdi não foi feito para grandes performances, mas não é esse o seu propósito. Tem um excelente torque e é extremamente econômico. Muito prazeroso de dirigir tanto na cidade quanto na estrada de asfalto ou terra.

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Em 1990 a versão V8 recebeu um sistema de injeção EFi, no lugar dos carburadores SU, e foi criada uma outra versão (aliás, bastante impopular), a 2.0 MPi, considerada inútil pelos conhecedores tanto em on quanto em off-road, provavelmente pela falta de força.

O Discovery 1 de 3 portas já é considerado um clássico no mundo todo e seu preço de mercado vem subindo a cada dia. Um modelo todo original em bom estado vale mais de R$ 50 mil, já um em excelente condição e restaurado chega aos R$ 80 mil. O mercado de clássicos se mantém aquecido, mas as “raridades” estão cada vez mais raras. Sempre quis ter um desses, e o verde garimpei para um grande amigo colecionador, que se apaixonou pelo carro.

Não vai vender nunca.

Quem sabe aparece algum perdido por aí. Estou sempre de olhos bem abertos.