Jaguar Land Rover acelera no Brasil

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Frank Wittemann, o novo presidente, chega a tempo de testemunhar aumento nas vendas,enquanto aguarda inauguração da primeira fábrica.

Por Oscar Pilagallo

A Jaguar Land Rover se prepara para uma nova fase no Brasil.
Na esteira de um crescimento nas vendas do primeiro trimestre, em meio à profunda recessão, a nova fábrica em Itatiaia, no Rio de Janeiro, ganha os últimos retoques, antes de ser inaugurada, ainda neste semestre.
O cenário é uma espécie de cartão de boas-vindas ao novo presidente da Jaguar Land Rover para a América Latina e Caribe, Frank Wittemann.

Aos 46 anos, Wittemann vem de experiências bem sucedidas na China e na Rússia.
“Toda a experiência que adquiri nesses mercados irá com certeza contribuir para a minha gestão aqui na América Latina e Caribe”, afirma o executivo recém-chegado a São Paulo.
Wittemann ainda está reconhecendo o terreno. “Acabei de chegar e estou andando bastante para descobrir o máximo que eu posso do Brasil”, diz o alemão nascido quase na fronteira com a França. “Infelizmente cheguei logo depois do Carnaval, mas não vejo a hora de participar da festa no ano que vem.”
O novo país de residência não lhe é totalmente desconhecido.
“Já passei férias no Brasil, visitando amigos no Rio de Janeiro e em São Paulo. Também já fui a Manaus, para conhecer a Amazônia.”

Wittemann, que se vira no idioma de Cervantes, começa a interagir com os brasileiros na língua de Machado de Assis.

“Já falo um pouco de espanhol e estou fazendo aulas de português.” O envolvimento cultural com a cidade passa também pela atividade da esposa, Marina Wittemann, que é pintora.

Depois de passar uma temporada na Rússia e na China, quais os desafios de dirigir a Jaguar Land Rover para América Latina e Caribe?

Este é um desafio realmente gratificante. A região da América Latina e Caribe possui imenso potencial de desenvolvimento no segmento de carros premium. Por meio das marcas Jaguar e Land Rover vamos dar andamento ao nosso plano estratégico ao lado dos nossos parceiros comerciais, as redes de concessionárias da região.
Além disso, o momento no Brasil é especialmente interessante, uma vez que inauguraremos em breve a nossa primeira fábrica totalmente própria fora do Reino Unido, no estado do Rio de Janeiro.

Os três mercados são bem diferentes entre si. É possível usar alguma dessa experiência para lidar com os desafios no Brasil?

Sim, toda a experiência que adquiri nesses mercados irá com certeza contribuir para a minha gestão aqui na América Latina e Caribe. A Rússia, apesar de culturalmente diferente do Brasil, é um mercado muito similar ao brasileiro. Lá o mercado já está um pouco mais maduro: o segmento premium atingiu 10% de participação. Aqui, onde o índice varia de 2% a 3%, há muita oportunidade.

No Brasil, há uma fábrica nova a ser administrada. E na América Latina e Caribe, quais são as suas prioridades?

Nessas regiões atuamos com uma rede de importadores.Há, assim como no Brasil, enorme potencial de mercado para atuação da indústria automotiva de luxo. Vamos seguir com todos os lançamentos de produtos previstos para este ano nesses países, onde estarei presente frequentemente.

O número de concessionárias deverá aumentar? Quais as projeções para Brasil e demais países?

Este é o momento de padronização do que chamamos de 3S:sales, services e spare parts. Ou seja, estamos padronizando as vendas de carros, os serviços e as vendas de autopeças no Brasil e nos 17 países da América Latina em que atuamos.Aqui, a padronização será aplicada à nossa rede de concessionários. Nos outros países, o processo se estenderá aos importadores. É a solidificação dos processos que vêm sendo desenvolvidos na área de vendas e pós-vendas ao longo dos últimos anos.

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Então a mesma concessionária comercializará as duas marcas?

Sim, a Jaguar Land Rover iniciou no ano passado um projeto de tornar dual brand todos os concessionários que atuam no Brasil. O mesmo processo está ocorrendo nas 49 lojas importadoras da América Latina que são representantes das duas marcas, Jaguar e Land Rover. Já atingimos mais da metade delas e até o final deste ano, todas as 35 concessionárias no Brasil venderão e prestarão serviços aos clientes das duas marcas.

O Brasil de hoje está muito diferente do Brasil de quando foi tomada a decisão de construir a fábrica de Itatiaia. Como vê essa nova realidade?

Decidimos fazer esse investimento de R$ 750 milhões em meados de 2012, depois de 25 anos inseridos no mercado brasileiro. A pedra fundamental foi lançada em dezembro de 2014 e a fábrica — a primeira da Jaguar Land Rover totalmente própria fora do Reino Unido — abre ainda neste semestre. Dessa maneira, a Jaguar Land Rover vem contribuindo para a economia brasileira, com
o compromisso de produzir nacionalmente nossos carros,gerar quatrocentos empregos diretos, trazer inovações para o mercado e trabalhar a comunidade das cidades próximas à fábrica.O primeiro carro a ser produzido será o Range Rover Evoque.Fabricaremos também o Discovery Sport, o mais versátil e compacto SUV premium do mundo. A capacidade total da fábrica é de 24 mil unidades por ano, voltada ao mercado nacional.

Mas a fábrica será inaugurada em meio à maior recessão da história do Brasil. Esse fato, talvez não previsto quando a decisão foi tomada, altera as previsões de vendas? A recessão afeta o mercado de carros de luxo?

Nós visamos ao longo prazo. As estatísticas indicam que a indústria automotiva brasileira total alcance, até 2025,aproximadamente 5 milhões de veículos. O segmento premium, no qual a Jaguar Land Rover atua, também deve acompanhar esse crescimento.Hoje, como disse, a participação das marcas de luxo está em até 3%, mas em mercados mais maduros o segmento automotivo premium representa cerca de 10%. Ou seja, a Jaguar Land Rover tem uma grande oportunidade no Brasil.O crescimento não é apenas uma expectativa, ele já vem ocorrendo. No primeiro trimestre, por exemplo, nosso volume de vendas aumentou 4% em relação ao mesmo período do ano passado.

Que leitura faz da atual crise política e econômica do Brasil?

O mercado brasileiro está sensível. Permanecemos atentos aos movimentos do setor automotivo geral e do setor de luxo em particular. Dessa forma, contar com resultados tão expressivos como os obtidos no primeiro trimestre nos faz acreditar ainda mais na recuperação da economia e no aquecimento gradual do mercado.Os carros que recentemente introduzimos no mercado — o sedã médio XE e o SUV compacto Discovery Sport — já refletiram nas vendas deste ano. Esses lançamentos chegaram com maior volume no final do ano passado e estamos com expectativas positivas para os próximos meses. Temos também um programa de financiamento, plano de seguro, plano de revisão e recompra garantida bastante atraente aos nossos consumidores.

Mas o ambiente de incerteza atrapalha os negócios? De um modo geral, tem havido retração dos investimentos. A Jaguar Land Rover está confortável na contramão?

A Jaguar Land Rover não está na contramão. Ela continua normalmente com seus planos de investimentos no país e está muito confiante de ter tomado a melhor decisão há dois anos. Agora a empresa está muito satisfeita em poder concretizar esse plano de oferecer carros nacionais aos consumidores brasileiros.

Qual a maior preocupação da matriz que o senhor identifica? O que mais preocupa a Jaguar Land Rover?

Como ainda a maioria dos nossos veículos é importada, a valorização cambial é um fator ao qual estamos sempre atentos para que possamos estudar cuidadosamente os preços que iremos praticar no mercado e não impactar nos nossos consumidores.

A empresa já tem unidade fabril na China, além de uma linha de montagem na Índia. Por que considera a do Brasil a primeira fábrica totalmente própria fora do Reino Unido?

As produções na China são uma joint-venture com a Chery.Na Índia o que temos é uma operação de montagem. Nesse sentido, a fábrica no Brasil será a primeira totalmente própria fora do Reino Unido. Recentemente anunciamos uma nova unidade fabril com nível global prevista para ser inaugurada em 2018 na Eslováquia, na cidade de Nitra.

O Brasil ocupa posição secundária nas vendas da Jaguar Land Rover: 9 mil carros vendidos aqui em 2015, em comparação a 487 mil no mundo. Com a fábrica de Itatiaia esse quadro muda?

O Brasil é um mercado prioritário para a Jaguar Land Rover global, assim como os demais países da América Latina e Caribe, que o escritório localizado em São Paulo coordena.Tanto que a matriz definiu que a primeira fábrica totalmente controlada por ela seria construída no Brasil. O compromisso com o país é no longo prazo, graças ao potencial que tem.

A empresa pensa, no futuro, em exportar para a América Latina parte da produção de Itatiaia?

A fábrica atenderá inicialmente a demanda do mercado interno. Estudos sempre estão vigentes na companhia, mas neste momento não há planos de exportação.