Henrique Prata – Sem limites para fazer o bem

herinque-01

“Em última análise, precisamos amarpara não adoecer”
Sigmund Freud

Por Ana Augusta Rocha | Fotos Gustavo Nunes

Todos conhecemos a expressão “ficar sem palavras”. Exprime bem quando nos percebemos num estado entre o espanto, a emoção e o encantamento, e nos foge a capacidade de qualificar. A gente dá uma risadinha tímida, mas geralmente os olhos não escondem o que se passa dentro: transbordam. Mas, infelizmente, não posso usar desse recurso agora com vocês, leitores da Eurobike Magazine. Calar, nem pensar. Preciso escrever esta matéria. E apresentá-los à Henrique Prata e ao Hospital de Câncer de Barretos, e tentar, em poucas palavras, contar essa emocionante história.

O câncer, infelizmente, conhecemos de longa data. É uma doença devastadora, um nome que a gente evita falar, um mal que acomete quase 600 mil brasileiros a cada ano, segundo fontes do Ministério da Saúde de 2013. Henrique Prata, no entanto, e o trabalho humanitário que leva adiante, precisam ser mais conhecidos. Cada vez mais conhecidos, até porque trazem a quem conhece a sua trajetória um orgulho de ser brasileiro, o que, convenhamos, não tem sido muito comum nestes tempos.

Breve retrato de Henrique quando jovem: neto de um mítico fazendeiro de Barretos, deixou os estudos com 15 anos para mergulhar no mundo das fazendas do avô, dos negócios, da lida com o gado e assim fez seu patrimônio muito cedo. Filho de médicos devotados à profissão, doutora Scylla e doutor Paulo Prata, tinha franca antipatia pelo Hospital São Judas Tadeu, administrado pelo pai. O hospital, cronicamente deficitário, consumia o patrimônio da família há décadas. Quando tinha 37 anos, Henrique, sob o impacto de um enfarte do pai, foi procurado pela direção do hospital, que pedia sua interferência: a situação financeira estava muito ruim e precisava de um bom administrador para reverter a situação. Henrique, desgastado com tudo aquilo, disse num desabafo que melhor seria fechá-lo e botar fogo naquele sorvedouro sem fim de dinheiro. O Hospital São Judas Tadeu, imerso nas diretrizes do doutor Paulo, de uma medicina inclusiva e igualitária, voltado para quem não tinha recursos, só atendia pelo SUS e não poupava esforços, nem remédios importados, nem tratamento (e nem carinho) para cada doente de câncer. Sem abrir mão da qualidade. Daí as contas no vermelho, sempre.

herinque-02

Henrique aceitou assumir o hospital e acordou com o pai que quando a situação estivesse saneada, eles o fechariam. Dolorido, mas necessário. Começou aí a segunda etapa da vida de Henrique, agora ao lado de um segundo homem-mito, o doutor Paulo Prata, a personificação do juramento de Hipócrates, o médico salvador de vidas, por essência.

Oito meses depois dessa decisão, Henrique já tinha obtido sucesso: o hospital estava no azul e ele estava contente em ter cumprido sua missão de empresário dinâmico e saneador. Na noite em que comunicaria o encerramento das atividades para os médicos, Henrique chegou mais cedo ao hospital. Lá estava o doutor José Elias, amigo de seu pai, para a reunião, trazendo consigo um livro de capa preta. “Você pode falar comigo um minuto antes?”. O médico o levou até a pequena sala de curativos, abriu o cadernão e lá dentro Henrique viu um prospecto de um foco de luz cirúrgico com um carimbo sobre a sua imagem: 5.500 dólares.

“Veja só, sua habilidade foi tão grande, organizando as finanças que penso ser fácil comprar esse foco e substituir a luz dessa sala”, continuou o doutor. Henrique tentou falar, foi impossível. “Acontece que se a gente trocar a luz que você vê agora, e transformar essa sala de curativos em uma pequena sala de cirurgias, conseguiremos salvar muito mais vidas por mês.” Henrique respirou fundo, buscando a palavra certa. Mais uma vez, o doutor continuou. “Pense, eu tenho um paciente com câncer no pulmão que, pela fila das cirurgias, eu só consigo operar em sessenta dias. Pelo tipo de câncer que ele tem, se eu o operar em vinte dias dou a ele mais anos de vida. Se não tiver a salinha como precisamos, consigo somente operá-lo em sessenta dias. É uma sentença de morte bem mais rápida, entende?” Henrique entendia, mas… “Então veja, se conseguir esse foco de luz, você, Henrique, vai salvar mais vidas que um médico, entende?” O fazendeiro, empresário, saneador, cheio de argumentos sempre, emudeceu. Naquele dia, naquela hora, entrou a luz que faltava. Henrique compreendeu que pessoas comuns, como ele, podiam salvar vidas, muitas vidas. Fez a reunião com os médicos, mostrou os números no azul. Voltou para casa, não falou mais nada com ninguém. Ou melhor, falou com Deus, mais precisamente sonhou com sua obra — um hospital gigantesco, horizontal, acolhedor, moderno, para os sem recursos, para Barretos, para o Brasil. Acordou com o sol nascendo, para lá de perturbado.

herinque-03

Não eram nem oito horas da manhã e já estava na casa do pai. “Pai, quero ver aquela planta do hospital que você mandou desenhar, pois eu sonhei com ela, sonhei que vou construir aquilo tudo.” O pai pensou que o filho estava louco, haviam combinado o fechamento do hospital e agora ele ali, naquela insistência irritante e perturbadora. A resposta foi um não, ou um meio não. Henrique queria ver se a planta no papel era igual à de seus sonho. “Só mostro a planta se você me provar que pode construí-lo.”

Henrique deixou a casa do pai quase sem respirar. Precisava pensar rápido! Do outro lado da rua viu seu primo, importante e sério fazendeiro da região, teve outra inspiração. “Maurício, se eu desse o nome de seu pai a um pavilhão novo do Hospital, você me ajudaria com dinheiro para construí-lo? Você acha que outros fazendeiros de Barretos contribuiriam dentro dessa lógica das homenagens?” Maurício Jacinto achou graça naquele ímpeto: “A construção do pavilhão vai tirar os doentes da rua?”. (Naquela época, por falta de espaço, muitos doentes recebiam a quimioterapia em cadeiras nas calçadas externas ao hospital.) Henrique assentiu. ”Então, não somente dou o dinheiro, como ajudo a arrecadar e também a construir, pois eu adoro uma obra.” Mais tarde, junto com Maurício e seu pai, pôde ver a planta sobre a qual nunca havia posto os olhos: era a mesma do seu sonho. A ”coincidência” calou fundo dentro dele. De uma luz e de um sonho iluminado, foi se compondo, ano a ano, o que vemos hoje, esse bairro-hospital de Barretos, imponente, moderno, uma referência na América Latina:

• O Hospital de Câncer de Barretos é referência nacional em atendimento humanizado, com infraestrutura e tecnologias de ponta.

• Fechou 2013 com mais de 600 mil atendimentos no ano, mais de 100 mil pacientes vindos de 1.585 municípios e também de países vizinhos.

• Com trezentos médicos em regime de total dedicação e quase 4 mil funcionários.

• Seu corpo hospitalar conta com o Hospital São Judas Tadeu, o Hospital de Câncer Infantojuvenil, o Instituto de Ensino e Pesquisa, o Instituto de Treinamento em Técnicas de Cirurgia Minimamente Invasivas e Cirurgia Robótica (IRCAD), o Instituto de Prevenção. Ao todo mais de 120 mil metros quadrados de área construída.

• Apoia outros municípios, incluindo nessa lista o Hospital de Câncer de Jales (SP), o Hospital de Câncer de Porto Velho (RO) e outras três unidades fixas de Prevenção nas cidades de Juazeiro (BA), Campo Grande (MS) e Fernandópolis (SP).

E não esqueçamos a última luz que Henrique teve: prevenção sobre rodas, com oito unidades móveis (carretas especialmente construídas para realizar exames e atendimentos) que percorrem vários estados do país. Para continuação do projeto, passou a fábricar essas carretas, em consórcio com a empresa holandesa Lamboo, visto que a prevenção multiplicada é o grande alvo de Henrique e sua equipe, agora. Quanto mais cedo o diagnóstico, mais chances. Muito mais chances.

Ao lado de Henrique, hoje há uma legião de fiéis colaboradores, gente que trabalha com ele há mais de vinte anos. Na viabilização financeira do hospital existem outras luzes, a dos holofotes dos artistas que ele conquistou para a causa de Barretos. Os cantores sertanejos mais conhecidos, como Chitãozinho & Xororó e Zezé di Camargo & Luciano, foram os primeiros a participar, doando cachês e bilheterias inteiras de shows que faziam na Festa do Peão de Boiadeiro, a mais famosa da cidade. Muitos cantores entram nessa lista: de Ivete Sangalo à Caetano Veloso e Sérgio Reis.

Do imenso plantador de laranja que apoia com grandes somas, ao pequeno peão de boiadeiro que ajuda a organizar os leilões de arrecadação; de empresas imensas até as lojinhas onde estão os cofrinhos de doação para o hospital; a todos ele é grato pelas contribuições e por apoiarem seu ideal, herança paterna, de atender quem não pode pagar pelo tratamento nos melhores padrões mundiais. Dos quase vinte milhões de custo mensal do hospital, Henrique e sua equipe sabem que haverá um déficit de cinco milhões de reais a cada mês. E que esse buraco será saneado com as doações vindas de todo o Brasil. Henrique forma com seus colaboradores e apoiadores um verdadeiro exército na luta contra o câncer no Brasil.

Uma das últimas de Henrique Prata é ter feito o governo ver que se o esporte tinha lei de incentivo e a cultura idem, estava na hora de se criar um incentivo a projetos de saúde. Por esta sua visão e de seu time, o governo brasileiro entendeu a necessidade e chancelou no final de 2012 a Lei 12.715/2012, que criou o PRONON, um programa federal “com a finalidade de captar e canalizar recursos para a prevenção e o combate ao câncer (…) mediante incentivo fiscal”. Instituições de pesquisa e atendimento, como o Hospital de Barretos, podem inscrever projetos e captar verba. Para se ter uma ideia, em 2013 o Hospital de Barretos captou quase 40 milhões de reais, o que garantiu o pagamento da folha em 2014 e a compra de um robô para cirurgias de próstata, o primeiro disponível para o SUS no Brasil.

A história desse fazendeiro que abraçou a medicina é muito longa, cheia de emoção e está bem contada no livro Acima de tudo o amor, de sua autoria, que escreveu ao fazer o Caminho de Santiago de Compostela. Páginas que fazem acreditar em milagres. Henrique é um homem religioso, sem pejo de parecer carola ou maluco, e sem limites internos, o que o faz sonhar e realizar continuadamente, contagiando pessoas ao seu redor. Ele explica esse talento e essa capacidade mais ao céu do que à terra: “Este é um projeto de Deus e não um projeto de pessoas. E não existe um tempo, nem limites para os sonhos de Deus”. Ainda bem que Deus encontrou em Barretos, para realizar seu sonho, um homem de boa vontade.

Serviços:

O PRONON permite a doação de valores de até 1% do imposto devido para pessoa física e para pessoa jurídica, com posterior abatimento de Imposto de Renda a pagar.

Para maiores informações:

escritoriosp@hcancerbarretos.com.br