Fly fishing na Patagônia

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Praticar essa modalidade de pesca, em busca de trutas, inclui a incrível experiência de estar na Patagônia, tão inóspita quanto fascinante

Por Marcelo Freitas

Pode-se pescar muitos tipos de peixe de água doce ou salgada – incluindo robalo, tucunaré, bass, tilápia, lambari, tarpon e até marlin – utilizando o método fly fishing. Mas os clássicos dessa modalidade estão na água doce e fria: a truta e o salmão. E foi em busca de trutas que partimos de Jundiaí, logo ao amanhecer, num pequeno avião Cirrus SR 22, de quatro lugares, até a Patagônia.

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O percurso até El Calafate foi feito em dois dias, com paradas em Pelotas, Mar del Plata e Trelew, recheado de vistas maravilhosas, tempestade sobre Bahia Blanca e ventos de 100km/h sobre o deserto da Patagônia, que fez o pequeno Cirrus pular como um cabrito. O último trecho foi percorrido sem comunicação com o controle de El Calafate. Pensamos que o avião estava sem rádio, mas na aproximação observamos que o aeroporto acendeu as luzes em pleno dia, indicando que nos via. Descobrimos depois que o aeroporto estava de fato sem rádio.

Ao sobrevoar a Patagônia, fiquei com a sensação de nunca ter visto tanto “nada” antes. Boa parte dos quase 700 mil km2 é de deserto, cortado por estradas que parecem intermináveis. Em algumas áreas encontramos o que parecem ser crateras, inúmeras, algumas secas e outras com águas de cores variadas, de verde claro ao preto, passando por diversas tonalidades de azul. São paisagens tão bonitas quanto estranhas.

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El Calafate é uma pequena cidade turística cuja principal atração é a geleira Perito Moreno. Essa geleira é impressionante e há três formas principais de admirá-la: caminhando sobre ela, de barco ou do mirante que fica bem em frente e quase encostado na geleira. Fomos ao mirante, embora permaneça a vontade de caminhar sobre ela.

Em El Calafate encontramos outros amigos com os quais, depois de alguns passeios, partimos de carro na direção norte, em uma viagem de seis horas (três delas em asfalto, uma hora e meia em estrada de cascalho e o resto em estrada com muita pedra), chegando no Lodge Estancia Laguna Verde. A estância compreende grande área com 15 lagos para pesca de trutas, que chegam a pesar 10kg. O lago principal, Strobel, também conhecido como Jurassic, é o maior de todos, com 65 km2 e uma paisagem única. Uma área do lago recebeu o apelido de Cocoon, pois tem formações calcárias que lembram os casulos do filme homônimo. Além disso, alguns americanos idosos que frequentam o local afirmam que voltaram de lá rejuvenescidos.

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Os dois fatores complicadores do local são a locomoção e o vento. Os caminhos são repletos de pedras e a progressão é lenta, e só pode ser feita em carros realmente preparados para terrenos difíceis. Algumas descidas para se chegar aos lagos têm forte inclinação, além das inúmeras pedras. O vento é um complicador na hora da pesca, pois a manobra para lançamento da mosca, que já é difícil em condições normais, fica bem mais desafiadora com vento.

As refeições são ótimas e sempre regadas a bons vinhos argentinos. O almoço é servido no local da pescaria. No estilo acampamento, os guias preparam a comida ali mesmo, ao lado de uma barraca de madeira com mesa e bancos. Conforto na medida para esse tipo de programa.

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Após a pescaria retornamos à pousada para um bom banho seguido de conversa na sala, com a lareira acesa. Na sequência o jantar, com cardápio sofisticado, variado e muito bom, com carnes perfeitas e sobremesas refinadas preparadas pelo chef Emiliano e servido por sua esposa, a impecável Sabrina. Novamente aproveitamos ótimos vinhos argentinos escolhidos por Beto, um dos sócios da estância. Apesar do ambiente inóspito, a fauna apresenta alguma variedade, incluindo guanácos, emas, raposas (conhecidas por zorro), lebres e diversos pássaros. Todos facilmente avistados nos trajetos percorridos.

Depois de dois dias e meio de pesca, retornamos a El Calafate para tomar o avião em direção a Junín de los Andes. Prosseguimos com o Cirrus, numa rota belíssima ao longo dos Andes. Os instrumentos indicavam que vários pontos da cordilheira possuiam maior altitude que a do avião. Esse foi certamente o trecho mais bonito da viagem. Acabamos passando sobre a região dos lagos onde tínhamos estado. Aliás, somente de cima é possível ter uma noção melhor de como é a área.

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Junín é uma pequena cidade na mesma região em que estão Bariloche e San Martin de los Andes. Alguns rios, como o Chimehuin e o Malleo, cortam a região e permitem a pesca da truta na forma mais tradicional, com o pescador dentro do rio nas corredeiras. Embora as trutas sejam menores, a pescaria é mais técnica e a utilização de equipamentos mais leves faz com que a diversão seja similar à de pegar uma truta maior.

Além da pesca de trutas, a região também conta com áreas para caça de cervos e javalis, atraindo muitos turistas estrangeiros. Os cervos podem ser vistos a alguma distância e por vezes de perto, como aconteceu com um de meus amigos, que estava pescando dentro d’água e viu um cervo cruzar o rio a cinquenta metros de distância.

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Ao chegar a Junín seguimos para o órgão de turismo para a licença de pesca, que é bem regulamentada e organizada. A fiscalização realmente existe. Fomos abordados uma vez pela polícia florestal e não tivemos problemas porque portávamos as licenças. Aliás, cabe aqui esclarecer que só praticamos o pesque e solte e não levamos um peixe sequer. Além disso, tiramos a farpa do anzol para facilitar a remoção do mesmo sem maiores danos ao peixe.

Ficamos hospedados no San Huberto Lodge, da família Olsen. Agradável e de muito bom gosto, com cozinha excelente. Na sala principal, no fim do dia, os pescadores se reúnem para um coquetel acompanhado de cervo, javali e truta defumada.

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O último dia de pesca foi o mais bonito, pois pescamos no rio Malleopela de manhã, com o vulcão Lanín ao fundo, e no lago Tromen à tarde, com uma água azul e muito transparente, permitindo ver o fundo a mais de 20 ou 30 metros.

Como eu era do grupo de amigos o único principiante em fly fishing, sofri um pouco no início, mas me diverti bastante e peguei muitas trutas. Mas isso só foi possível graças à colaboração dos amigos Carlos Eduardo, Galvão, João Chiarelli e o famoso pescador Gustavo dos Reis Filho, mais conhecido por Gugu. Eles dedicaram a usual paciência do pescador a mim e não ao peixe.

A pescaria esportiva pode ser dividida em dois tipos básicos: a praticada com iscas naturais e a com iscas artificiais. A pescaria com iscas artificiais é usualmente mais complexa e considerada por muitos como a mais esportiva, pois requer do pescador alguma habilidade extra, tanto para o lançamento da isca quanto para fazê-la ter, aos olhos do peixe, um comportamento como o de um ser vivo. Dentre as pescarias com iscas artificiais, as duas que se destacam são a de cast e a pescaria com mosca, ou fly fishing.

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No cast o pescador utiliza uma vara com carretilha ou molinete e lança uma isca, usualmente parecida com um pequeno peixe, para depois recolhê-la com movimentos similares aos que os peixes fariam. Nessa modalidade a isca, com seu peso, leva a linha.

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Na pescaria com mosca isso não é possível, pois o peso da isca é mínimo. A mosca não tem peso suficiente para levar a linha e o que ocorre é justamente o contrário, ou seja, a linha leva a isca. No cast o pescador lança a isca, enquanto no fly o pescador lança a linha. Para tanto, é necessária uma linha diferente, com uma certa massa, e o lançamento ocorre com a linha sendo jogada para trás e para a frente, eventualmente duas ou três vezes, até que o pescador permita que a isca caia na água. Cada vez que o trajeto da linha muda de sentido, ela aplica uma certa carga sobre a vara.

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Essa carga será, por sua vez, devolvida à linha enviando-a até o fim do trajeto, quando esse processo volta a ocorrer. A destreza necessária faz com que a pescaria de fly seja reconhecida como a mais esportiva de todas.

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Onde ficar:

http://www.estancialagunaverde.com/
http://www.olsenfamily.com.ar/es/content/patagonia-san-huberto-lodge