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Expedição Yungas Road – Uma viagem pela lendária “estrada da morte”

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Por Reinaldo Junqueira Jr. / Fotos Douglas Moreira, Reinaldo Junqueira Jr. e Laurent Refalo

São 6 horas da manhã de um sábado nublado quando meu celular toca e do outro lado uma voz eufórica me pergunta se eu ainda estava dormindo. Dou uma desculpa e digo que não. Era um amigo, viajante motoqueiro que acabara de chegar de uma viagem pela América do Sul e queria me contar por onde havia se aventurado com sua moto nesses últimos meses. Me contou que havia passado por vários lugares, e dentre eles por uma estrada localizada nos Andes bolivianos que tinha o nome carinhoso de “Carretera de la Muerte”.

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Disse que eu deveria conhecer esse caminho também. Tomei nota, mas a princípio não me entusiasmei muito com a indicação e respondi que iria dar uma pesquisada a respeito do local.

Algum tempo depois resolvi que estava na hora de me preparar para uma nova viagem com meu Defender e me lembrei daquela anotação. Comecei então uma exaustiva pesquisa sobre a história da estrada e confesso que não era nada “entusiasmante”. Só de ler o nome, “estrada da morte”, e sua localização, pensava cinco vezes antes de prosseguir. Mas tudo aquilo começou a me fascinar e eu tinha certeza que era capaz de passar por aqueles caminhos.

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Mesmo tendo total consciência dos riscos que se apresentavam, inclusive de morte, eu segui adiante colhendo informações e tomando coragem para realmente definir o meu destino.

Então, após alguns meses de pesquisa e preparação mental, decidi que estava pronto para vivenciar tudo aquilo que havia lido a respeito da estrada da morte.

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Precisava de companhia para essa viagem, e não foi fácil convencer alguns amigos a embarcarem comigo na empreitada. No final, juntaram-se a mim um grande amigo fotógrafo e um filmmaker francês que estava em busca de um local diferente para captação de imagens.

Definidas as rotas e organizados todos os documentos para uma viagem de carro, saímos de São Paulo rumo a Corumbá (MT) para atravessarmos a fronteira. Viajar pela Bolívia não foi nada fácil.

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Tudo muda nos primeiros quilômetros após a fronteira, a começar pela corrupção escancarada que reina nas estradas: qualquer coisa é motivo para te extorquirem. Como eu já sabia disso, me precavi, levei muitas camisetas da seleção brasileira que tinha comprado na rua 25 de março, em São Paulo, que acabaram sendo minha moeda de troca – funcionou!!

Outra coisa incompreensível foi uma determinação do governo boliviano de cobrar 3 vezes mais caro o combustível para veículos com placas estrangeiras.

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Essa medida nos pegou de surpresa até descobrirmos uma alternativa, que foi levar para abastecer nossos galões extras pessoalmente, deixando o carro longe do posto, o que funcionou algumas vezes. Fora isso, a Bolívia é um pais muito colorido, com um povo amistoso e paisagens maravilhosas.

Seguindo em frente, passamos por Santa Cruz de la Sierra, Cochabamba, atravessamos a chamada “rota do tráfico”, que por sinal foi bem tenso, e após alguns dias chegamos em La Paz.

Cansados dos dias anteriores, nosso plano era ficar um ou dois dias quietos para nos aclimatarmos, antes de começarmos a nossa descida pela Carretera Yungas. Aos 3.600 metros de altitude, nossos corpos começaram a sentir os efeitos. Por onde passávamos perguntavam para onde iríamos e, ao mencionar a Carretera Yungas, todos, sem exceção, nos aconselhavam a não fazer isso, e diziam para termos cuidado com o Kari-Kari. Não entendemos muito bem e, depois dos insistentes conselhos, fui me informar o que seria o Kari-Kari.

Diz a lenda boliviana que o Kari-Kari é uma entidade maligna que habita a Carretera Yungas, sendo o responsável pela maioria das mortes por lá. Seria capaz de causar uma sonolência no motorista e retirar sua alma pelo umbigo. Para combater o Kari-Kari, segundo a crença local, nós deveríamos percorrer a estrada antes das 18h, e com os bolsos cheios de dentes de alho!

Tomadas todas as providências, inclusive a do alho, e partimos para percorrer a tão esperada estrada. Rodamos aproximadamente 20 km até a saída de La Paz em direção a La Cumbre. A 4.650 metros de altitude, já bem perto das nuvens, o carro também começa sentir os efeitos da altura e fica mais lento, pesado, mas segue em frente.

Ao passarmos por um túnel, uma montanha imensa, verde, surge diante de nós, e lá está a Carretera Yungas. Um misto de alegria, euforia e medo toma conta de nós, que ali estávamos prestes a iniciar os primeiros quilômetros naquela estrada estreita e perigosa, sem saber o que poderia nos acontecer.

É o único lugar da Bolívia onde se usa a mão inglesa, ou seja, quem desce deve se manter à esquerda e dar passagem pela direita. Assim, nós deveríamos iniciar a nossa descida a centímetros do precipício. Faz sentido adotarem a mão inglesa, pois dessa forma o motorista consegue enxergar melhor onde coloca a roda da frente na hora de dar passagem para quem vem no sentido oposto. E é bem nesse momento que a maioria dos acidentes fatais aconteceram e acontecem!

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A sensação de vivenciar tudo aquilo que eu havia lido foi indescritível, e quando me dei por conta já estava num dos trechos mais sinistros, conhecido como “El Balconcillo”, palco de uma das maiores tragédias de toda a história da Carretera Yungas. Ocorrido em 24 de julho de 1983, um ônibus saiu da estrada, matando mais de 100 passageiros.

Essa estrada é uma das poucas rotas que atravessam a Amazônia boliviana, seguindo até a capital do país. A “Yungas Road”, entre os quilômetros 61 e 69, apresenta o trecho mais assustador de todas as estradas do mundo: é relatado por ter um acidente fatal a cada duas semanas; entre 100 e 200 pessoas morrem lá todos os anos, despencando montanha abaixo. Tanto que foi considerada, em 1995, pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, “a estrada mais perigosa do planeta”.

Outra característica muito conhecida são as “Santas Cruzes” ao longo da pirambeira. Cada uma significa que um automóvel rolou desfiladeiro abaixo. Eles dizem que alguns trechos são habitados por espíritos que tentam distrair o condutor e fazê-lo cair pela encosta impressionante. Além disso, em depoimentos colhidos por nós, muitos motoristas relatam que é comum escutarem gritos e pedidos de socorro que ecoam dos precipícios, dizem ser as almas dos acidentados que jamais foram resgatados!

Seguindo por aquele caminho sinuoso e apertado, naquela imensidão verde, com todas essas histórias na cabeça, me fez pensar que se acontecesse alguma coisa por ali não seria nada fácil sair daquela situação.

O sol já estava se pondo quando enfim avistamos o vilarejo de Coroico. Me lembrei na hora daqueles conselhos dos bolivianos a respeito do horário da lenda do Kari-Kari, porém não dava para fazer mais nada, pois acelerar seria loucura. Uma hora depois já entrávamos no vilarejo, nosso destino final da Carretera Yungas.

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Ficamos hospedados por três dias, colhendo informações sobre a estrada e nos preparando para a volta. A princípio, iríamos retornar pela nova estrada, conhecida somo Sur Yungas, inaugurada recentemente pelo governo boliviano para evitar que os acidentes em massa continuassem na Yungas Road. Uma estrada bem mais segura, asfaltada, com guard-rail e bem sinalizada, entretanto, “sem emoção” para nós. Diante disso, resolvemos voltar pelo mesmo caminho, mas dessa vez estávamos mais seguros, pois iríamos subir pelo lado esquerdo – ao lado do morro e não do precipício.

Nossa maior surpresa no retorno foi o tempo. Adiamos por dois dias nossa partida, aguardando melhores condições climáticas, e quando já não dava mais para esperar, decidimos sair num dia relativamente nublado. Foi o maior erro! Iniciamos bem a subida, mas antes da metade da viagem o tempo virou completamente, e nesse momento deu para sentir o porquê do nome Estrada da Morte. Não conseguia enxergar um metro à frente do carro, as curvas simplesmente apareciam do nada. A tensão tomou conta de nós mas, graças a Deus e aos dentes de alho, sobrevivemos para poder contar essa história.

Mais sobre a Yungas Road

O significado de Yungas

Yungas é a denominação para as regiões das Selvas Tropicais Andinas, cujas altitudes variam de 300 a 3.800 metros acima do nível do mar. Na parte baixa um clima úmido da Selva Amazônica, nas partes mais altas, clima frio nos “Bosques Andinos”. A região de Yungas boliviana é responsável pelo abastecimento dos mercados de La Paz, sendo rica em frutas, café e folhas de coca, as melhores folhas de toda a Bolívia.

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A história da Carreteira Yungas Segundo depoimentos, e não existem documentos que comprovem, contam que esse caminho foi uma trilha inca e depois foi usada pelos antigos Aymarás, via de acesso às Selvas Tropicais, em busca de alimentos. A estrada foi “aberta” na década de 1930, pelas mãos dos prisioneiros paraguaios da Guerra do Chaco, uma guerra travada na região dos Chacos, que ocorreu pela disputa por uma suposta descoberta de petróleo aos pés dos Andes, o que resultou na morte de 60 mil bolivianos, além da perda de parte de seu território para os paraguaios. E a descoberta de que os supostos poços de petróleo não existiam.

De acordo com dados oficiais do governo boliviano (ABC – Administração Boliviana de Caminho), em 2011 ocorreram cerca de 136 acidentes, e alguns afirmam que foram aproximadamente 120 vítimas. Nessa estrada, um segundo de distração e as montanhas não perdoam, os acidentes são mortais.

Após a classificação de estrada mais perigosa do mundo pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, o governo boliviano demorou mais de 10 anos para projetar e construir uma nova estrada ligando essas regiões.

Antes disso, tentou adotar algumas medidas para diminuir o número de acidentes, estipulando uma espécie de “rodízio” para circulação na estrada, alternando os horários de subida e descida. Porém, essa ideia não deu muito certo, pois causou uma revolta entre os caminhoneiros que alegavam prejuízos por esta medida, uma vez que estavam atrasando muito as entregas nos mercados de La Paz. O governo voltou atrás e, sofrendo pressão, resolveu iniciar o projeto para uma nova estrada, mais segura. A Sur Yungas foi entregue em 2005.

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Mesmo assim, em busca de mais emoção, alguns ainda se arriscam nos abismos e nas curvas da antiga Carretera Yungas, como nós. Hoje em dia ela está praticamente abandonada, o que torna a viagem ainda mais perigosa devido a falta de manutenção regular. Ela se tornou um dos atrativos turísticos da Bolívia, reconhecida mundialmente pelos ciclistas que fazem o downhill e mantendo o seu título de “A estrada da morte”.

Quem trafega pela estrada dos Yungas deve respeitar uma regra para tentar evitar os acidentes, e esta se aplica a todos os motoristas e ciclistas: “Ou seja, quem estiver descendo, sentido Coroico, deve sempre permanecer do lado esquerdo, ao lado da borda do abismo e obrigatoriamente dar passagem para quem estiver subindo, sentido La Paz, pelo lado direito”.

Participantes dessa aventura:
LAND ROVER DEFENDER 110 2001 CSW
Reinaldo Junqueira Jr., empresário,
43 anos
Douglas Moreira, fotógrafo, 44 anos
Laurent Refalo, filmmaker, 30 anos

+ www.facebook.com/yungasroad