Energia para mover negócios

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Há quase seis anos trabalhando pela expansão da energia solar no Brasil, o maior desafio para o sócio da Blue Sol – Energia Solar, Luis Colaferro, é levar conhecimento à sociedade sobre os benefícios de gerar sua própria energia

Por Talise Rocha / Fotos Juan Esteves

Imagine abastecer sua casa, empresa, ou mesmo seu carro com energia limpa e economicamente viável, vinda de uma fonte inesgotável. Para Luis Otavio Colaferro, 28 anos, esse cenário está cada vez mais próximo de se tornar realidade para milhões de brasileiros graças à tecnologia solar fotovoltaica, que captura a luz do sol para gerar energia.

Idealista e sócio de uma das primeiras empresas do setor, a Blue Sol – Energia Solar, de Ribeirão Preto (SP), Luis acredita que, para provocar uma mudança real em produção de energia, é preciso educar o consumidor, mostrando a ele o poder de gerar sua própria energia. Mais do que isso, o desafio é disseminar o empreendedorismo na área, provando que energia solar pode ser um bom negócio.

Aos 23 anos, Luis formou-se em Administração nos Estados Unidos pela Grand Valley State University. Logo após a conclusão do curso, em 2010, decidiu voltar ao Brasil e se unir ao irmão mais velho, José Renato Colaferro, e ao pai, o empresário Nelson Colaferro Jr., para juntos formarem um novo negócio no promissor setor de energia solar. Ainda dentro da faculdade, Luis demonstrava interesse em projetos inovadores com influência em novos modelos de mercado, ao trabalhar com sistemas de crédito de carbono.

“O que me motivou a entrar no ramo da energia solar foi a oportunidade de relacionar um novo negócio, com muito potencial de crescimento, a algo que tivesse um impacto social e ambiental positivo”, conta.

A visão de oportunidade da família Colaferro foi o que tornou possível a criação da Blue Sol. Tudo começou em 2008, quando o então empresário do setor automobilístico Nelson Colaferro Jr. decidiu vender todos os seus negócios para explorar uma nova área de atuação. Nelson viajou por diversos países em busca de tendências de mercado e, entre suas descobertas, percebeu que o setor de energia solar fotovoltaica já acontecia em todo o mundo, mas ainda era fraco no Brasil. “A energia solar tinha muito embasamento em outros países, como a Alemanha, com projetos de lei e incentivos. O Nelson previu que em algum momento seria possível que pequenos consumidores de energia elétrica, residenciais e comerciais de pequeno e médio porte, pudessem gerar energia. Era isso o que faltava no Brasil naquela época”, pontua Luis.

A mudança de fato ocorreu e os incentivos vieram em 2012, com a instituição pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) da Resolução Normativa 482, que estabelece as condições gerais para a microgeração e minigeração distribuída de fontes renováveis ligadas aos sistemas de distribuição de energia elétrica. Como explica Colaferro, existem dois tipos de aplicação da tecnologia fotovoltaica: a conectada e a desconectada à rede das distribuidoras de energia. Os projetos com sistemas desconectados foram o foco de sua empresa durante os dois primeiros anos.

“Quando o sistema é desconectado da rede, ele tende a ser menor porque alimenta uma carga de energia específica, que muitas vezes sai mais em conta.”

Para Luis, a Normativa foi um divisor de águas. “Com a Resolução 482, todo consumidor de energia elétrica pode gerar a própria energia de forma conjunta com a rede, abatendo o valor na conta de luz e gerando uma economia muito interessante.” Em quase seis anos desde o início da Blue Sol, Luis viu os volumes de vendas aumentaram e o potencial da tecnologia se tornar cada vez mais evidente. “Na medida em que o setor cresce, os custos com energia solar caem no Brasil, apesar do aumento recente do dólar. Isso impressiona muito e traz viabilidade para o consumidor final”, diz Colaferro.

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Poder ao consumidor

Com a aplicação de sistemas conectados, principalmente residenciais e comerciais, a empresa cresceu de dois anos para cá. Em 2015, foram comercializados pela Blue Sol mais de 130 sistemas de energia solar, um crescimento de quase três vezes se comparado a 2014. No Brasil, há cerca de 1.500 sistemas conectados à rede. Nessa realidade, a Blue Sol foi responsável pela comercialização de quase 200 sistemas, dentre os quais 108 projetos com instalação própria da empresa.

O grande desafio no mercado de energia solar é levar conhecimento à sociedade sobre a tecnologia fotovoltaica.

“As pessoas estão acostumadas a consumir energia sem perguntar sobre outras opções. É tudo sobre solicitar a conexão e pagar a conta no final do mês.” Luis e os demais sócios da Blue Sol entenderam que para vender projetos seria preciso informar não apenas o cliente final, mas também fomentar o empreendedorismo nessa área. “Para que a informação chegue até os ouvidos dos clientes, você precisa de agentes disseminadores, empresários e empreendedores falando da tecnologia solar. Quanto maior o número de pessoas que você atinge, maior o seu potencial de mercado.”

Assim, foi formulada uma rede de treinamento dentro do negócio da Blue Sol, com cursos técnicos de instalação, projetos e cursos empresariais. Luis é responsável pela criação de conteúdo para a capacitação e treinamento de mão de obra. Mais do que o conhecimento sobre a aplicação dos sistemas, seu trabalho, como ele mesmo define, é levar adiante a oportunidade do empreendedorismo nesse setor. De acordo com ele, em cinco anos foram capacitadas 4.757 pessoas.

O diferencial da energia solar em comparação a outras fontes de energia limpa, segundo Luis, é o fato de ser possível produzi-la em pequena escala. “A energia solar é a única que traz essa possibilidade, pois não há muitas restrições técnicas. Contanto que você tenha um telhado apto, pode instalar um sistema em uma escala pequena e se tornar um produtor de energia. Já outras fontes limpas, como a eólica, devem ser construídas e planejadas através de grandes centrais de geração.”

A região Sudeste tem sido o carro-chefe do crescimento da energia solar no Brasil, tendo os estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro à frente por conta do aspecto econômico. Em algumas regiões de Minas, explica Luis, o uso da fotovoltaica compensa em pelo menos três anos o que o cliente gastaria com sistema tradicional. “É algo que impacta muito. Em Minas, São Paulo e no Rio, essa relação de payback chega a ser de cinco anos.”

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Movidos por energia solar

Na avaliação do sócio, outras tecnologias acompanharão os sistemas de geração solar, como o carro elétrico. Prova disso é o projeto “Movidos por energia solar”, desenvolvido pela Blue Sol em parceria com a Eurobike. A ideia é realizar, durante um ano, visitas a 23 clientes de energia solar na região Sudeste utilizando um modelo elétrico BMW i3, que será abastecido a partir dos sistemas fotovoltaicos. “Enquanto fazemos as visitas, o carro estará sendo abastecido para que a equipe possa continuar o percurso, literalmente sendo movidos por energia solar”, brinca Luis.

O objetivo final da série de visitas será a produção de um documentário dividido em 48 capítulos, tendo o carro elétrico como uma alavanca de atenção. Os episódios serão divulgados a partir de março. No total, serão percorridos 3.500 km entre São Paulo, Rio de Janeiro, Espirito Santo e Minas Gerais, com o veículo sendo reabastecido em trechos de 200 km. “Teremos a oportunidade de testar esse modelo e mostrar que ele é viável, evidenciando o quanto essas tecnologias podem se associar”, entusiasma-se.

Um longo caminho

Apesar da participação crescente da Blue Sol na expansão da energia solar no Brasil, Luis acredita que ainda há muito por fazer. Em nove anos, segundo medições da Aneel, o mercado deve sair da marca de 1.500 sistemas para 1,2 milhão de sistemas instalados. O caminho será longo e a expectativa para 2016 é expandir os negócios da empresa com uma rede de franquias. “Quando as pessoas tomarem consciência dessa mudança, ou irão comprar o sistema ou deixarão passar uma possibilidade muito boa”, salienta.

Até 2020, a Blue Sol pretende instalar 150 mil sistemas de energia solar fotovoltaica. Determinado, Luis enxerga um futuro ainda mais promissor, onde existirão modelos de financiamento para que clientes com menos poder aquisitivo possam ter energia solar. “Queremos conscientizar cada vez mais pessoas, transformando a visão de energia solar do cliente e também do empreendedor, que vislumbra isso como um negócio”, finaliza.