De moto pelo mundo

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Estamos realmente dispostos a abrir mão?

Mas abrir mão de quê?

Primeiramente, e um tanto óbvio, a gente só pode abrir mão do que tem. Se não tem, é fácil dizer sobre o que o outro deveria fazer. Como diz a Monja Cohen: “Quando a gente abre as mãos, lá cabe todo o Universo”.

Por Klaus Pimenta

Após a morte do meu pai, em 2014, percebi que deveria ir além, deveria abrir mão de certezas pré-estabelecidas e ir até a realização dos meus sonhos. Decidi recomeçar. Abri mão do meu único bem, o apartamento aonde morava, para poder realizar este sonho — o de conhecer o mundo em cima de uma moto. Foram cerca de dois anos até tomar a decisão definitiva de mudar o rumo e agir. Não foi fácil. Abrir mão da segurança para lançar-me no desconhecido não parecia muito sensato, mas ou a gente vive a segurança da gaiola ou o prazer do voo. E eu decidi voar! Moto comprada, equipada, todos os detalhes verificados… Momento da partida se aproximando.

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A ideia inicial era ficar três anos na estrada. Rodar por todos os extremos do planeta de uma única vez. Terra do Fogo, Alaska, Noruega, Vladivostok, Tóquio, Cidade do Cabo…

Mas tive que aprender a esperar, e controlar minha ansiedade (como isso é difícil!). Tenho duas filhas (9 e 8 anos), e a distância e o tempo não seriam bons aliados para algo tão significativo e grandioso. Sou pai presente, me preocupo, sempre fui próximo. Abrir mão da paternidade real sempre foi o maior desafio deste projeto. Decidi, portanto, distribuir a rota ao longo de cinco anos. Américas, Europa, Ásia, África e Oceania. Quero passar por todos esses lugares, fotografar minha moto, placa de São José dos Campos… e superar todos os meus limites e expectativas.

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Superação – palavra de ordem!

Quem disse a nós, em algum momento da vida, que algo é impossível? É tanta vida que cresce pré-estabelecida e formatada ao longo dos anos, seja pela sociedade, amigos ou família. Diante da passagem dos quilômetros, isso foi o que mais comecei a perceber em mim: eu sempre fui enormemente guiado pela segurança da gaiola (aonde as certezas moram, como escreveu Dostoiévski). Que influência imensa e imperceptível, mas profundamente existente e enraizada em todas as minhas ações e pensamentos.

Ao longo do caminho, e até mesmo pelo fato de viajar sozinho, comecei a questionar meus limites, a rever minhas atitudes, a me provocar e me desafiar, a querer mais e mais… e um mundo com todas as possibilidades surgiu. Foi como se eu tivesse aberto um cofre dentro de mim, e nele houvesse caminhos que me conduziriam aonde eu quisesse. E eu só pensava em conhecer mais ainda sobre mim, e sobre tudo que me completa — grande objetivo da viagem.

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Passamos a vida sendo compelidos a bater metas, ultrapassar barreiras, seguir caminhos, suprir necessidades, maximizar lucros e superar expectativas. E o que eu mais me perguntava:

De quem? Para quem? Quais delas são realmente minhas? Será que eu mesmo identifiquei e decidi sobre as minhas necessidades, ou desde criança decidiram por mim e eu não havia sequer percebido? A gente segue caminhos traçados e não se dá conta do destino. Disseram: Vá por ali, lá você será feliz… E eu sempre fui! Eles não estavam errados, eu é que deveria ter reformulado os planos ao longo da vida. O fato era, quanto mais eu ia me conhecendo, mais eu tinha necessidade de reconstruir os meus próprios caminhos. Era como se tudo já não servisse mais. Eu precisava mudar, e acontecia de dentro pra fora.

Parece algo estranho, mas nunca tinha refletido sobre quais eram as MINHAS metas, as MINHAS escolhas. Quando eu excluí tudo aquilo a que fui compelido a entender como sendo o “meu destino”, o que sobrou foi alguém que eu mal conhecia. Era como se eu, criança, tivesse ressurgido na garupa da moto. Me lembrei até de um filme chamado Duas vidas, protagonizado por Bruce Willis. Uma chance de recomeçar, fazer melhor e ser feliz!

Em cinco dias de estrada, já havia saído do Brasil, estava rodando pelo Uruguai.

Eu, que só havia ido a Foz do Iguaçu, fiquei me sentindo uma criança deslumbrada! As rodovias, em geral, são muito boas, e assim como no Brasil, o limite de velocidade sempre oscila entre 90 e 110 km/h. Pode parecer pouco, mas eu geralmente viajo a 100km/h. É mais seguro e evita uma série de dissabores com a legislação. E sozinho, era melhor não arriscar. Permaneci nesse ritmo por praticamente todos os 50 dias e mais de 15 mil quilômetros. Era mais uma viagem de contemplação do que de metas a serem alcançadas. Eu estava apenas vivendo, e não mais correndo atrás da vida. Viajei de Buquebus entre Colônia de Sacramento e Buenos Aires. Foram três horas de náuseas. O barco é muito seguro, mas balança demais! Duas dicas importantes: a primeira é comprar a passagem para o horário da madrugada. Fica 60% do valor normal e se você tem facilidade, dá para dormir nos assentos, que são bem confortáveis. A segunda dica é “ancorar” a moto em alguma barra lateral do barco. Acho mais prudente. Da forma como o barco balançou, talvez a moto tivesse caído se não estivesse amarrada. Ainda que minha amarração tenha ficado mais parecida com nó de cadarço, ela não caiu.

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Saí de Buenos Aires bem cedo, seguindo pela Ruta 3. Um misto de adrenalina e nervosismo. A primeira placa indicando Ushuaia veio em cerca de duas horas. Nesse momento a gente percebe que fez a escolha certa, e que a realização pessoal realmente é o topo da pirâmide das necessidades humanas.

Foram algumas paradas na sequência: Bahia Blanca, Puerto Madryn (linda e de puro charme na época de verão), Rada Tilly (ao lado de Comodoro Rivadavia), Comandante Luis Piedrabuena e Rio Gallegos. Em Rio Gallegos fiz a troca dos pneus Michellin Anakee 3 pelos Metzeler Karoo 3, uma vez que o Karoo roda bem melhor na terra e seriam muitos quilômetros nesse tipo de terreno. Eu, que nunca havia pilotado na terra e não tinha experiência alguma, estava bem apreensivo. Moto pesada, cara, eu sozinho… e se eu caísse? Caindo, e se quebrasse algo em mim ou na moto? Nessa tensão eu segui sentido Tierra del Fuego. Na balsa encontrei três motociclistas de Indaiatuba-SP (Avelino, Carlão e Conrado), meus companheiros de rípio (mistura de terra e cascalho, super escorregadio na chuva e que produz um pó fino quando está seco). Foi providencial. Como a amizade reforça nossa segurança e nos faz mais tranquilos nos momentos de tensão! Foram meus anjos da guarda.

A chegada em Ushuaia foi muito emocionante. A cidade mais ao sul do planeta, e eu estava lá. Ver o famoso Portal foi demais! De lá seguimos até Baia Lapataia, final da Ruta Nacional

3. Finalmente estava no fim do mundo. Eu e Deus; e os novos amigos da estrada.

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De Ushuaia segui rumo a Santiago. Meu segundo grande sonho era percorrer a Carretera Austral — estrada com uma história um tanto parecida com a nossa Transamazônica no motivo de sua construção, e que ainda é praticamente toda de rípio. No sul do Chile e da Argentina passei os momentos mais tensos da viagem: muita chuva, muita lama e muito vento (em determinado local o frentista de um posto de gasolina me disse que no rádio haviam informado que a velocidade do vento estava a cerca de 110 km/h). Minha moto, com quase 400 kg e com 1,10 m de largura, vinha pela rodovia a praticamente 45° de inclinação. Eu, a 90 km/h e sentado na lateral da moto. Num determinado momento tomei o maior susto da viagem — o vento levantou a roda da frente. Minha primeira vontade foi parar, mas aonde? Lá não há nada além de estrada, deserto, os Andes ao longe, e guanacos. O jeito era seguir. Nem rápido e nem devagar, o “meio termo” era mais seguro. A bolsa que vai sobre o tanque não permanecia mais ali… ela, assim como eu, viajava de lado. Não sei como as tiras não arrebentaram. O grande diferencial foi a experiência e a confiança adquiridas nos pouco mais de 250 km de rípio da Tierra del Fuego. Isso me deixava mais tranquilo — ou menos apreensivo. O vento foi abrandando depois de El Calafate. Mas foram cerca de 600 km de lama, muita chuva e pedras. Um sonho realizado. E de todos estes 800 km, nenhuma queda! Me superei.

Após Santiago a sensação era que a primeira parte havia chegado ao fim. Começava o momento de retornar para casa, rever as filhas que choravam em mensagens de Whats-app e Skype e aguardar a próxima grande viagem.

Foi muito interessante perceber as mudanças culturais ao longo dos países. As necessidades são outras, visivelmente outras. Os países na maioria das vezes remetem a uma vida mais bucólica e rural; as pessoas são mais receptíveis e sorridentes, é bem parecido com o interior do Brasil. Na Argentina, por exemplo, sempre fui saudado com muita alegria. As pessoas paravam e perguntavam sobre tudo. Com um olhar de deslumbre, as perguntas de sempre eram: Está vindo de onde e vai pra onde? Quanto custou a moto? Qual a velocidade de cruzeiro? Gasta muito? Aonde estão seus amigos? Você viaja sozinho?

Por uma questão que misturava economia de dinheiro e vontade de viver mais próximo às pessoas, eu fiquei em hostels e na casa de amigos, mas em 70% das noites fiquei em campings. Ali eu conheci muita gente legal, de todos os lugares do mundo. Conheci pessoas da Argentina, Chile, França, Estados Unidos, Colômbia, Costa Rica, Peru… e tantos outros. Hoje tenho muitos lugares espalhados pelo mundo todo, aonde me ofereceram abrigo e bate papo. Não há, necessariamente, solidão para quem viaja sozinho.

Em novembro próximo seguirei sentido norte da Argentina, vou até o Deserto de Atacama, atravessarei a Bolívia até a Estrada da Morte, depois Cusco, conhecerei Machu Picchu e depois voltarei ao Brasil, aonde percorrerei a Transamazônica, retornando para casa pelo litoral nordestino. Em 2017 a meta é chegar ao Alasca, depois Nova Iorque e Key West (na Flórida).

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Tudo isso um dia foi sonho, e hoje vai se transformando em realidade com a ajuda do meu amigo André Braga Jr – Tomate Cereja Design, que criou o desenho dos baús laterais, das minhas camisetas e dos adesivos que colei por todo sul da América, e claro, da Eurobike, que me ajudou a equipar a moto e a mim para esse grande desafio.

Nunca tive a pretensão de holofotes. Tudo que fiz e faço na minha vida foi com o propósito de me conhecer, conhecer o mundo, quem sou eu e o que vim fazer aqui! Uma busca por um propósito que está além do convencional. Desde criança a pergunta que não sai da minha cabeça sempre foi: O que eu estou fazendo aqui?

Tenho consciência, hoje, de ser referência apenas para as minhas filhas, e espero sê-lo de forma positiva. Procuro ensinar a elas que para crescer e ser feliz é importante seguir uma direção interna que sempre as levará a um melhor delas mesmas. Para mim, isso pode ser traduzido pela união de autoconhecimento, ética e força de vontade. Isso está muito longe de ser simples, tampouco é fácil… Sempre haverá um mundo que tentará dissuadi-las, mostrando sempre um caminho mais “normal” e óbvio… Mas que não necessariamente está alinhado com o que faz os olhos brilharem e o coração bater mais forte! E é neste instante, quando se deseja que o momento se eternize, que passamos a identificar o que realmente nos faz feliz.

O que faz isso comigo? Aonde me encontro no melhor de mim? Na estrada, nas pessoas, nos lugares, nas descobertas, nos desafios… A elas? Cabe a cada uma delas saber! Talvez a única coisa que eu ensine de fato seja a busca! E ela vale a pena! Mais do que um objetivo, a busca simboliza o caminho… O ir, se lançar!!

Não trago comigo a vaidade de ser famoso, ser aplaudido, ser invejado, ser referência. Pela minha ótica, não faço nada de excepcional pra isso! Apenas estou sendo eu! Para mim, todos os erros e acertos da minha vida só tiveram este único objetivo: ser eu mesmo, mas não ser sempre o mesmo.

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Isso pra mim é crescimento.

Isso me traz felicidade.

Respondendo a minha própria pergunta no começo: Sempre abri mão de muitas coisas, mas nunca abri mão de mim mesmo — da busca, do crescimento e da alegria.

Isso me faz vivo.

Me faz Eu!

Vamos juntos?