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Com a Endeavor, empreendedorismo entra no dicionário — e na pauta

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Não é uma incubadora de novos negócios. É uma articuladora de interesses empresariais que aproxima mentores e aprendizes, conta Fernanda Antunes, diretora de Relações Institucionais da organização

Por Oscar Pilagallo | Fotos Juan Esteves

Em meados de 1997, uma jovem estudante universitária norte- -americana fazia um trajeto de táxi em Buenos Aires, quando resolveu puxar conversa com o motorista. Ela estava na capital argentina havia pouco tempo e tinha curiosidade sobre a realidade local. Resolveu conhecê-la um pouco mais a partir da experiência pessoal de quem a conduzia pelas ruas portenhas. O taxista era culto, tinha diploma universitário e, apesar disso, não conseguia nada melhor para fazer que dirigir um táxi. Não havia outro emprego disponível e ele não via a possibilidade de abrir um negócio. Puro desperdício de capital humano, pensou Linda Rottenberg, uma aluna de direito da Universidade de Yale, em Connecticut, que aproveitava as férias de verão nos Estados Unidos para fazer uma pesquisa de campo na América Latina. Sabendo que a trajetória do motorista não era incomum nos países em desenvolvimento, ficou imaginando que iniciativa ela poderia tomar para fazer a diferença em casos como aquele.

Ocorreu-lhe o exemplo da Ashoka, uma organização mundial sem fins lucrativos que surgira no início da década anterior com o objetivo de apoiar empreendedores sociais. Criada na Índia por um norte-americano, a Ashoka aglutina pessoas criativas que possam ajudar a transformar o mundo. Linda gostava da proposta, mas queria algo diferente. Dona de um sorriso largo e cativante, Linda conversou com muita gente na volta aos Estados Unidos, elaborou seu plano e antes do fim do ano, junto com um colega de Harvard, Peter Kellner, já havia fundado a Endeavor Initiative Inc., organização sem fins lucrativos criadora do conceito de empreendedorismo de alto impacto. A diferença entre as duas organizações começa pelos sentidos embutidos nos próprios nomes. Enquanto ashoka significa “ausência de sofrimento”, em sânscrito, a palavra inglesa endeavor pode ser traduzida como esforço ou empenho — e era isso o que Linda tinha em mente.

Esforço empreendedor em um ambiente desfavorável à iniciativa empresarial, no entanto, corre o risco de ser em vão. Foi provavelmente por isso que a Endeavor não nasceu no país onde a ideia foi concebida. A Argentina, com suas crises econômicas recorrentes potencializadas por uma ação do Estado que não facilitava a vida daquele taxista e seus conterrâneos, não parecia uma opção promissora. A Endeavor, então, começou em 1998 num país vizinho, o Chile, onde uma série de reformas institucionais nos anos anteriores havia tirado alguns obstáculos da frente dos novos empresários. (A Argentina, de qualquer maneira, foi o segundo país em que a organização passou a atuar.) Ainda no primeiro ano de funcionamento da Endeavor, Linda se encontrava em Santiago do Chile, fincando raízes na comunidade empresarial do país, quando cruzou o caminho de Carlos Alberto Sicupira, um dos sócios da Inbev e dono de uma das maiores fortunas do Brasil. Beto, como é chamado, gostou do que viu, e achou que a Endeavor tinha tudo a ver com o momento pelo qual o Brasil passava, já com a economia estabilizada depois do Plano Real. E foi por sua iniciativa que a organização chegou ao Brasil, em 2000.

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No começo, poucos sabiam o que era aquela Organização da Sociedade Cível de Interesse Público, mais conhecida pela sigla Oscip. Para se ter uma noção da ignorância geral, os dicionários, onde aparece a palavra “empreendedor”, que remonta ao início do século 17, ainda não tinham registrado “empreendedorismo”, como notou, na época, Marília Rocca, uma executiva então com 26 anos que acabara de se tornar a primeira diretora- -geral da Endeavor Brasil.

Como a confusão é grande, não é demais dizer o que a Endeavor não é: a organização não é uma incubadora de novos negócios, ramo que iria prosperar anos mais tarde. Trata-se, isto sim, de uma articuladora de interesses empresariais, que aproxima mentores, de um lado, e aprendizes, de outro. Os mentores são grandes empresários que se tornaram paradigmas entre seus pares; os aprendizes são empreendedores capazes, que teriam todas as condições de alcançar sozinhos o objetivo definido, e que fazem isso queimando etapas com o empurrão de quem tem experiência adquirida e desejo de compartilhá-la. Não é raro no universo do empreendedorismo criativo que a ideia original se transforme antes de se tornar realidade. Foi as- sim com a Endeavor. O taxista que fora a centelha do projeto não seria diretamente beneficiado pela organização, a não ser, talvez, se por conta própria tivesse montado uma boa frota com algo diferente para oferecer aos passageiros. O fato é que o foco da Endeavor está fechado no empresário que já se lançou no mercado com alguma promessa de sucesso. Fernanda Antunes, diretora de Relações Institucionais da Endeavor, explica que a organização tem quatro critérios para escolher seus parceiros. Em primeiro lugar, o tamanho conta: a empresa deve ter um faturamento entre R$ 2 milhões e R$ 50 milhões por ano. Em segundo, é fundamental que o empresário seja ambicioso.

Leva-se em conta também o potencial de expansão do empreendimento — a possibilidade de que venha a ter ganhosde escala é decisiva. E, em quarto lugar, exige-se um diferencial competitivo.O êxito da Endeavor pode ser medido pelo número de interessados.A cada ano, mais de 2 mil pequenos e médios empresários se inscrevempara participar do programa. Quanto ao rigor da organização,também é expresso numericamente: na média, entre dez e quinzeempresas — apenas — são aprovadas a cada ano. “Queremosencontrar a Natura dos próximos dez anos”, compara Fernanda, referindo-se à marca que é sinônimo de excelência e crescimentoconsciente para deixar claro que o funil é estreito. Hoje a Endeavortem 56 empresas no portfólio, e almeja um teto não superior asetenta, às quais se dedicam os cerca de quatrocentos mentores que inspiram as novas gerações.O que as empresas pagam mal dá para cobrir os custos. A Endeavornão tem fins lucrativos, mas não vive de ar. Para manteruma estrutura enxuta — sessenta funcionários espalhados nasede em São Paulo e em seis regionais, do Sul ao Nordeste —,a organização conta com o patrocínio dos chamados “embaixadores”,grandes empresários que apadrinham novos empreendedores,e com a renda obtida com a realização de eventos,como o Day 1.
Em meados de novembro, pelo sexto ano consecutivo, a Endeavor lotou o auditório do Ibirapuera com o Day 1, como chama o dia da virada, o momento em que o empresário dá a guinada decisiva em sua trajetória. Na mais recente edição, empresários como Ricardo Sayon, fundador da loja de brinquedos Ri Happy, Marcelo Maisonnave, responsável pela construção da XP Investimentos, Luiza Helena Trajano, que colocou o Magazine Luiza no topo do mercado varejista brasileiro, e Bento Koike, fundador da Tecsis, uma das mais importantes fornecedoras de pás para energia eólica do mundo, deram depoimentos tão breves quanto inspiradores, lembrando o primeiro passo da longa caminhada. O Day 1 de Koike, para citar um único exemplo, foi precoce, aos 15 anos, quando o menino cismou de projetar e construir um submarino para duas pessoas — e, contra todas as probabilidades, levou a cabo a tarefa. A confiança advinda da façanha o acompanharia por toda a vida e o ajudaria a enfrentar os muitos revezes que teria pela frente antes de finalmente consolidar a marca.

O programa acaba gerando um círculo virtuoso. O empresário inexperiente e visionário aprende a transformar seu impulso numa empresa inovadora e, uma vez realizado o sonho, ajuda com seu exemplo os que vêm depois, que por sua vez serão os líderes de amanhã. Foi assim que a Endeavor Brasil se tornou a maior do mundo em termos de faturamento conjunto com as empresas associadas, algo em torno de US$ 2 bilhões. A organização tem representação em 16 países, número que deve subir para 25 nos próximos anos.

As empresas brasileiras que fizeram crescer a Endeavor prosperaram elas próprias. Nos últimos três anos, o faturamento médio dos empreendedores da rede aumentou 53%, e isso num período em que a expansão econômica do país foi pífia. Mas tal crescimento, embora bem-vindo, não é um fim em si mesmo. A Endeavor se preocupa igualmente com a qualidade da expansão. “Não apoiamos o crescimento a qualquer custo”, afirma Fernanda, que trabalha na organização desde 2008, quando ainda cursava o último semestre de administração na Fundação Getúlio Vargas. “Queremos um projeto que transforme a comunidade, não prejudique o meio ambiente e não esteja baseado em má cultura empresarial.”

Embora não tenha função expressamente social, a Endeavor acaba tendo impacto positivo nessa área. Estima-se que no Brasil tenha ajudado a criar 10 mil postos de trabalho. O escritor Thomas Friedman, vencedor de um prêmio Pulitzer, escreveu no best-seller O mundo é plano que “a Endeavor é o melhor programa de combate à pobreza que existe”. É possível, afinal, que aquele taxista argentino, de quem se disse que não se beneficiou diretamente da ação da Endeavor, tenha tido algum benefício indireto.

Depois de treze anos de Brasil, período em que colocou o empreendedorismo no dicionário e na pauta, a Endeavor se prepara para uma inflexão. A partir do diagnóstico de que negócios precisam de ambiente favorável para florescer, a organização está decidindo intervir no debate público e apoiar reformas que facilitem a vida do empresário, como a tributária e a trabalhista. Fernanda cita uma pesquisa que coloca o Brasil — a sétima maior economia do mundo — em 116º lugar em ambiente adequado para empreender. “Precisamos diminuir essa diferença”, diz ela.