Colecionador de verdades

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A incrível coleção de arte popular de Riccardo Gambarotto é uma reunião de expressões de verdade e beleza de artistas de todo o Brasil

Por Simone Fonseca | Fotos Eduardo Sardinha

São milhares de peças que vieram do interior de Pernambuco, Bahia e Minas Gerais, às vezes de cidades sem luz elétrica, escola ou posto de saúde. Nas casas simples desses lugares moram artistas que nunca ouviram falar em tendências contemporâneas, não conhecem o MASP nem os grandes mestres da pintura Renascentista. Não sabem o que é nem onde fica a Capela Sistina e não têm a menor ideia de quem foi Picasso ou Portinari. Alguns deles, inclusive, não sabem ler ou escrever.

Mas esses homens e mulheres produzem uma arte de altíssima qualidade estética e imenso valor cultural. Arte pura, espontânea e intuitiva, que nasce do fundo de seus corações. Arte que já pegou estrada afora, integrando exposições nos principais museus do planeta, já foi objeto de estudos em teses, tema de livros e, hoje, faz parte de coleções particulares, como a de Riccardo Gambarotto. Arte feita das verdades dessas pessoas, que não seguem o mercado, mas falam de seus lugares, de cotidianos, de crenças e tradições.

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Riccardo é um dos maiores colecionadores de arte popular do Brasil. Ao longo de mais de 30 anos, garimpou peças de artistas como Ulisses Pereira, Noemiza, mestre Dezinho de Valença, mestre Vitalino, mestre Expedito, dona Izabel, Manuel Gaudêncio entre tantos outros que se destacaram em peças de cerâmica e barro, além de uma impressionante reunião de arte plumária indígena. Isso sem falar nas máscaras africanas, mas aí já é outra história.

Engenheiro de Produção formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, desde criança Riccardo coleciona pelo prazer de colecionar. Já se aventurou pelo mundo dos selos, chaveiros e caixas de fósforo. Atualmente, está mergulhado no universo dos tecidos e viaja por vários países em busca das tramas mais belas e elaboradas.

Mas a arte popular é paixão grande e antiga. A primeira peça foi adquirida em 1982, no Peru. “Era moleque e estava numa viagem de muitas descobertas. Vi uma peça, me encantei e trouxe para casa. Foi aí que tudo começou”, conta Riccardo. Uma história por trás de cada peça Nessas três décadas, Riccardo rodou milhares de quilômetros pelo Brasil para formar sua coleção. Chegava nas regiões onde sabia que havia alguma tradição artística e procurava pelos artistas daquele lugar. Foi assim que, no Vale do Jequitinhonha, chegou em Ulisses Pereira Chaves, Noemiza Batista e dona Izabel, famosa bonequeira. E que na Bahia chegou ao Louco. E em Terezina conheceu João Borges e mestre Expedito (ver boxes). Todos eles estrelas de primeira grandeza da arte popular de nosso país, que moravam ou ainda moram escondido, nos fundos dos sertões. “Para ir até a Noemiza, por exemplo, eu precisava andar uma hora a pé”, diz Riccardo. “Já para chegar ao seu Ulisses eram dois dias de viagem. E tinha que levar plástico bolha para poder embalar as peças, porque lá não tinha nada.”

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Para ele, o grande prazer não é exatamente comprar, mas conhecer as histórias que vêm com cada obra. Nessas três décadas de mergulho profundo nas raízes da arte popular, Riccardo foi estabelecendo uma relação emocional com vários artistas, chegando a ficar próximo de vários deles. Conhecendo suas casas, suas famílias, seu modo de viver a vida e a arte. Soube que muitos deles aprenderam a lidar com o barro fazendo objetos utilitários, panelas para cozinhar, moringas para beber, brinquedos para as crianças. Isso é tradição em lugares que não tem onde comprar objetos e muito menos dinheiro para isso. Algumas dessas pessoas ultrapassaram as fronteiras desse fazer e se tornaram artistas. Usaram a técnica para falar da alma. Muitos dos nomes que hoje ficaram famosos começaram assim, paneleiros ou louceiros, como são conhecidos. Entre tantas pessoas interessantes que conheceu nesses anos de estrada, desenvolveu uma grande admiração pelo mestre Expedito, pois com sua arte ele conseguiu proporcionar uma vida digna para sua família. “Fico muito feliz que ele tenha conquistado uma boa condição de vida graças à sua obra.” As bonecas da dona Izabel também deram a ela e sua família um ofício que lhes trouxe dignidade e reconhecimento. Já outros artistas não conseguiram solucionar a equação com o dinheiro e ainda vivem em estado de muita pobreza, apesar de seus talentos. Riccardo diz que já comprou peça ruim para ajudar. Já levou quadrinho da parede da casa de um artista que morreu, e que não foi pintado por ele, para a viúva poder pagar o enterro. Já patrocinou um artista do Piauí durante um ano, comprando toda a sua produção. Só desse moço, chamado João Borges, reuniu mais de 200 peças. “Cada peça que está aqui vem com uma história, eu não compro nada de galeria”, revela.

As joias da coroa

Uma das peças preferidas de Riccardo é um belíssimo São Francisco feito em jaqueira, árvore de madeira amarela, pelo Louco, apelido de Boaventura Silva Filho, escultor do recôncavo baiano, extremamente criativo e cujas formas transitam entre o catolicismo e as religiões afrobrasileiras. Aliás, esse é um dos nomes que o colecionador mais respeita em função de seu alto valor estético.

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Impressiona também o seu acervo de obras de Ulisses Pereira, ceramista mineiro que aprendeu o ofício com sua mãe, que por sua vez aprendeu com a avó e esta com a bisavó. Uma linhagem de mulheres que moldaram o talento do herdeiro. Considerado um dos mais importantes escultores brasileiros do século 20, a obra de Ulisses, toda feita em barro rosa puro, mistura gente com bicho, traz minotauros, lobisomens, pássaros com pés de gente, figuras de várias cabeças. Ulisses era analfabeto, assinava todas as peças só com as iniciais UP, e produziu uma obra consistente, excelente e muito original que foi chamada de surrealista por alguns críticos.

Na porta da entrada da casa de Riccardo Gambarotto um panteão de orixás recebe seus convidados. São esculturas grandes, cerca de um metro de altura, que foram produzidas na Bahia, seguindo a tradição de arte santeira que existe por lá. Belas obras feitas em cerâmica, com muito movimento e harmonia nas formas.

“Eu compro pela estética. Não compro pelo significado religioso, pois isso não quer dizer nada para mim, mas pelo prazer que tenho de conviver com essas peças”, conta Riccardo. Da sua coleção também vale a pena mencionar as obras de Noemisa, que podem ser vistas como uma crônica da vida rural, com as cenas de batizados, casamentos, ambientes de trabalho, e as consagradas bonecas de dona Izabel. Filha de uma paneleira que vendia utilitários de barro, Izabel fazia bonecas de barro para brincar, escondida da mãe. Autodidata, modelava seus casais – a noiva e o noivo, alguns com mais de um metro – a partir das moringas de barro, as tampas eram as cabeças. As duas artistas são mineiras, do Jequitinhonha. E dona Izabel, que faleceu em 2014, ganhou vários prêmios, entre eles o prêmio Unesco de Artesanato para a América Latina. Além das obras de arte popular do Nordeste e Minas Gerais, Riccardo também se aventurou no garimpo de peças indígenas. Adquiriu uma coleção importante de arte plumária da etnia Rikbaktsa, que habita o Mato Grosso. Essas obras comprou nas lojas da Funai, espalhadas pelo Brasil. E hoje são uma raridade, já que a comercialização da arte plumária foi proibida pelo Ibama, para impedir a extinção de pássaros como a arara azul, cujas penas já coloriram muitos cocares. O colecionador tem um pouco de loucura Na casa de Riccardo não cabem mais obras de arte popular. Espalhadas por todos os cômodos, salas, quartos, corredores, atelier, banheiros, ele disse que decidiu parar de colecionar quando percebeu que estava comprando só para guardar. Chegavam as peças e nem tirava da caixa, porque não tinha onde colocar. Aí parou de viajar e também de responder ao telefonema de intermediários dos artistas, que ligam para anunciar uma produção recém-saída do forno. “Ser colecionador já é um pouco de loucura, então você tem que parar e medir esse grau de insanidade. Quando você começa a comprar para guardar, aí já chegou a hora de parar. O prazer não pode ficar só no comprar”, diz Gambarotto. Brinca dizendo que colecionador não morre, mas se um dia por ventura ele vier a morrer, teria o maior prazer em doar a sua coleção para um museu. “Contanto que seja tratada com a importância que a arte popular brasileira merece.”

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Usando as palavras de Gambarotto, essa é uma arte que não precisa de explicação, pois fala diretamente ao coração, porque tem verdade, força e beleza.

Sobre a arte popular

Existem vários conceitos sobre arte popular. Uns afirmam que é a arte feita por pessoas que nunca frequentaram escolasespecializadas ou aprenderam os rudimentos do desenho, pintura ou escultura. Outros preferem dizer que é arte de um povo, que reúne um conjunto de símbolos e identidades particulares a essas gentes, retratando valores locais ou regionais. Há ainda quem afirme que é a arte feita por pessoas pobres. Não é raro a arte popular ser confundida com artesanato, e embora as fronteiras entre ambos não tenham contornos muito claros, elas são diferentes em sua concepção. Em uma análise bastante simplificada pode-se dizer que é artesanato quando a função predomina sobre a forma, e arte quando a forma é o mais importante. A histórias de alguns desses homens e mulheres que fazem a história da arte popular brasileira.

MESTRE VITALINO

A arte popular brasileira deve muito a Vitalino Pereira dos Santos, cujas obras chamaram a atenção dos grandes centros urbanos para esse tipo de manifestação. Nasceu em 1909 na zona rural de Caruaru, Pernambuco, e sua relação com o barro começou na infância, quando esculpia pequenos animais, como bois e cavalos, que os irmãos vendiam na feira. Com o tempo, passou a retratar várias cenas de seu cotidiano. Especialistas contabilizam mais de 130 temas retratados por ele. Aos 40 anos saiu do sítio e foi para o Alto do Moura, comunidade a sete quilômetros de Caruaru, onde passou o resto da vida. Nos anos 1940, sua arte integrou exposições no Rio de Janeiro e em São Paulo. A partir de então, caiu no gosto da elite e virou notícia na imprensa nacional, o que fez com que a feira de Caruaru, local onde vendia suas peças, virasse atração turística. Após sua morte, o reconhecimento de sua obra ganhou ainda mais notoriedade. Entre suas obras mais famosas estão o Trio pé de serra, o Enterro na rede, o Casal no boi, os Noivos a cavalo, a Família lavrando a terra, e Lampião e Maria Bonita.

ULISSES PEREIRA CHAVES

Ulisses nasceu em 1924 na zona rural de Caraí, município do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Foi um dos primeiros homens a exercer a arte do barro na região. Filho da paneleira Domingas Pereira Santos, por sua vez filha, neta e bisneta de oleiras. Morava num sítio no meio do mato com a mulher, onde criou seus oito filhos, entre eles Margarida, excelente ceramista. Ulisses dizia “ser gente da natureza, sempre junto com o sol, a lua e as estrelas”. Seu imaginário muito particular fez com que fosse reconhecido como um dos mais importantes escultores brasileiros. Suas obras atravessaram o Atlântico para integrar a mostra “Brésil, Arts Populaires” (Grand Palais, Paris, 1987), que foi levada para o Museu de Arte de Brasília, em 1988, e, em seguida, para o acervo permanente do Centro Cultural de São Francisco, em João Pessoa, Paraíba.

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DONA IZABEL

As bonecas de dona Izabel são lindas. Algumas têm quase um metro de altura. Em sua maioria são casais de noivos, com o homem vestindo um terno muito alinhado, a mulher de branco, grinalda e buquê de flores nas mãos. Além de lindas, são inovadoras. Dona Izabel foi a primeira a esculpir os olhos em alto relevo. Antes eram apenas pintados, como ainda fazem muitas outras artesãs do Vale do Jequitinhonha, onde dona Izabel (1924-2014) nasceu, viveu e morreu. Sua história é parecida com a de muitas outras mulheres de seu lugar. Desde a infância já criava pequenas figuras de barro, imitando sua mãe, louceira. Adulta, fazia suas próprias peças utilitárias, que vendia nas feiras. Quando ficou viúva, para ajudar no sustento dos filhos, começou a modelar animais. Nos anos 1970 nasceram as bonecas. Suas peças começaram a ganhar notoriedade com o trabalho da Comissão de Desenvolvimento do Vale do Jequitinhonha, que comprava para revenda. Em 2003, as bonecas foram parar na São Paulo Fashion Week, em homenagem do estilista Ronaldo Fraga. Recebeu vários prêmios, entre eles o Unesco de Artesanato para a América Latina (2004) e o Prêmio Culturas Populares (Ministério da Cultura, 2009).

MESTRE DEZINHO

José Alves de Oliveira nasceu em 1916 em Valença, cidade do interior do estado do Piauí. Marceneiro de formação, iniciou seu trabalho em escultura em Teresina, entalhando ex-votos. Nessa cidade, a pedido do vigário local, esculpiu imagens sacras em cedro para a Igreja da Vermelha. Suas peças são talhadas em cedro, obedecendo muitas vezes o tamanho original da madeira. Na decoração das saias de santos e anjos está presente a temática da cultura piauiense, com cajus, folhagens e flores típicas da região. Considerado precursor da arte santeira do Piauí, dá nome a um complexo cultural e está com parte de sua obra exposta na Casa da Cultura de Teresina.

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NOEMIZA

A obra de Noemiza nos conta de seu mundo. Cenas de casamento, o sanfoneiro com sua sanfona, o dentista e seu paciente, a noiva se preparando para seu grande dia. Cada obra é uma crônica de grande força e delicadeza, com incrível riqueza de detalhes. Noemiza é mineira do Vale do Jequitinhonha e uma artista que aprendeu muito jovem a modelar o barro com a mãe. Utilizando apenas a tabatinga branca, obtém efeitos contrastados sobre o tom do barro cozido.

Para saber mais sobre estes e outros artistas populares brasileiros, leia O pequeno dicionário da arte do povo brasileiro – Século XX, de Lélia Coelho Frota, da Editora Aeroplano.