Cavalcante – Chapada dos Veadeiros, lado B

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Uma viagem pelos cenários de Cavalcante, no coração do cerrado goiano, terra de cristais mágicos e águas encantadas, chão de festas e tradições kalungas da maior nação quilombola do Brasil

Por Eduardo Petta | Fotos Carol da Riva

O kalunga de nome Jovino dos Santos Rosa coa o café preto no fogão a lenha da sua casa. Toma-o lentamente acompanhado de um pão doce. Termina, apanha a mochila e o pandeiro, se despede da patroa, das três netinhas e pula em nosso carro com a agilidade de menino. Ele tem 66 anos mas quando fala sorrindo parece criança. “Hoje vocês vão ver o que é uma cachoeira maravilhosa. Eita lugar bão”, diz. E partimos em direção ao rio do Prata, distante 60 quilômetros por estrada de chão batido de Cavalcante de Goiás, coração da Chapada dos Veadeiros, 320 quilômetros ao norte de Brasília. “Conheço cada canto desse cerradão como a palma da minha mão”, diz Jovino. Por onde ele passa é gente gritando: “Jovino, Jovino, Jovino!”.

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E Jovino sabe das coisas desse sertão. Ele pega o pandeiro e introduz algumas modinhas. Cruzamos caminho por terras kalungas. Faz sol forte, levanta poeira da estrada. Tempo de seca, quando o pó tinge de marrom as flores amarelas dos ipês e as roxas das sucupiras. Caminho de terra, areia e pontes quase quebradas, mas o 4X4 é valente como as árvores retorcidas e contorcidas que se arriscam a viver na solidão quente do cerrado. Quase toda a região de Cavalcante é assim, feita de solidão e paisagem. O bicho-homem é raridade por aqui. São apenas 10 mil habitantes espalhados por uma área duas vezes maior que o município de São Paulo e que abriga 60% do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Quem visita os 60 mil hectares do Parque fica hospedado em Alto Paraíso, a cidade dos hippies e discos voadores, ou em São Jorge, onde fica a sede e portaria da área de preservação. “Cavalcante é o lado B. Pouca gente conhece. Sorte dos kalungueiros (como ele chama sua gente)”, sorri Jovino. Sorte nossa também.

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Uma hora e meia depois, no horizonte esfumaçado, além do mar de serras e buritis, nosso guia kalungueiro enxerga. “Olha o Prata (o rio) ali na frente. São sete cachoeiras, mas vamos na melhor.” Descemos em frente a uma das quedas, tomamos um banho para aplacar o calor, mas Jovino nos prepara para a caminhada. “Meia comprida e calça pra não machucar nos espinhos”, avisa. Duas horas contornando trilhas de cristais entre semprevivas enfeitadas.

Jovino conta histórias de como seu povo, os Kalungas, se instalou nos vales quentes e áridos (chamados de Vãos) do rio Paranã e seus afluentes, na fronteira de Goiás com Tocantins. “Fugiam dos senhores e vinham pra cá se misturar com os índios kayapo, karajá, acroá, avá-canoeiro, xacriabá e xavante.

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Trocavam segredos e sabedoria. E aqui viviam da natureza, da roça da mandioca, da caça e da pesca no rio Paranã, escondidos dos bandeirantes e dos colonizadores, povoando esse mundão.”

Foram estes kalungas que a antropóloga Mari Baiochi, da Universidade Federal de Goiás, revelou ao mundo no início da década de 1980, tempo em que foi concluída a estrada GO-040. Em seu livro Kalungas – Povo da terra ela descreve o povo ressabiado que se escondia do homem branco, que sempre aparecia trazendo notícias ruins. “Meus avós viviam assim”, diz Jovino, “sempre perto do mato, pra fugir rapidinho.”

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Em 1988, com a Constituição Federal, os quilombolas ganharam o direito à terra, mas a luta pela legalização ainda continua. Segundo a Fundação Palmares, ligada ao Ministério da Cultura, das 3782 terras apenas 193 foram tituladas. Fazendeiros e principalmente as mineradoras, de olho nessa brecha da lei, querem destituir os 237 mil hectares do Sítio Histórico do Patrimônio Cultural Kalunga, região riquíssima em manganês. “Mas kalunga é bicho brabo, que não foge da peleja”, alerta Jovino. “A gente não vai arredar o pé daqui não”, diz.

A trilha do Prata é marcada por riachos e gostosa de se andar. Não há tempo para cansaço diante de tanta beleza. O sol destila veneno, mas Jovino não arreda o pé até chegarmos diante de sua majestade, o rei do Prata. Uma queda de 20 metros emoldurando um lago cor esmeralda do tamanho de um campo de futebol cercado de altas falésias. O mergulho é um deleite, uma meditação na importância de viver o momento presente. Voltamos da trilha e alcançamos as portas do carro ao tocar do sol na Terra. Chegamos à noite em Cavalcante, na Pousada Vale das Araras. O vilarejo fundado em 1740, com a descoberta de ouro na região, dorme. Dormimos também.

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No dia seguinte acordamos cedo e guiamos uma hora e meia até o Vão de Almas, no encontro do rio de mesmo nome, o Almas, com o gigante Paranã. A fortuna segue ao nosso lado. O calendário aponta 16 de agosto. É dia de festa da padroeira kalunga, Nossa Senhora da Abadia, e quase 5 mil quilombolas estão reunidos para festejar suas tradições. Nos sentimos na África. Dezenas de mulheres kalungas repetem a cena de buscar água no rio e levar à aldeia. De roupas cintilantes coloridas, elas marcham com as bacias equilibradas na cabeça, levantando a poeira do chão. O rio de Almas é uma festa dentro da festa. E todo organizado para higiene. Suas primeiras águas são para coleta do beber. Depois, na prainha, é para a criançada brincar: de bola, cambalhota, mergulho, pega-pega. A seguir, a área de banho, e logo depois a de lavar a louça. Por último, a área de barcos e animais. A maior parte chega à festa no lombo de mulas.

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A organização da festa D’Abadia não é fácil. Imperador e imperatriz são sempre eleitos no ano anterior, assim como a encarregada. Nesse ano foi Rosalinda dos Santos Rosa, mais conhecida como Pretinha, uma mulher linda e forte de 32 anos, que corre para todos os lados para ver se os bois estão na panela, se os trajes do cerimonial estão em ordem, se os rituais serão cumpridos. Às quatro da tarde se chama a todos para benzer a bandeira e levantar o mastro. O berreiro e o foguetório anunciam a partida do cortejo. O alferes da bandeira, o alferes da adaga, o capitão do mastro. Estão todos prontos. O sanfoneiro aperta o tom. E os foliões partem pelas alamedas da aldeia.

O imperador vai de terno branco e coroa de flores na cabeça, além de óculos escuros, símbolo de status. A imperatriz: vestido branco, coroa de metal dourado na cabeça, como as deusas africanas. Guarda-sóis coloridos e espadas de flores asseguram a pureza do cortejo. Os músicos vão atrás. Jovino é o mestre do pandeiro. O batuque ganha ritmo e alegria. Caretas, os personagens mascarados, brincam de assustar a criançada. E todo mundo segue a comitiva até a capela, para a benção, a reza e a explosão da festa. Hora do forró. Voltamos à Cavalcante na madrugada, pensando quanta cultura oculta existe no Brasil.

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Passamos a manhã na Pousada das Araras, um luxo da simplicidade para quem ama a natureza, localizada em uma Reserva Particular do Patrimônio Nacional. Richard, o proprietário, cuida de cada cantinho e detalhe com delicadeza, seguindo em tudo os princípios da sustentabilidade. O café da manhã tem tudo orgânico e caseiro: pães de queijo saídos do forno quentinho, suco de cajá docinho, geleias naturais, frutas do pomar. Araras e tucanos ora passam em revoadas ora pousam nos buritis para ceia matinal. Richard nos leva para uma caminhada suave até o seu quintal, o rio São Domingos. Um mergulho na cachoeira particular pro dia nascer feliz.

Após o almoço, seguimos à Ponte de Pedra. Meia horinha de carro, mais meia de subida até o topo da cordilheira, e o andar por uma das trilhas mais lindas do Brasil, pontilhada por toda a beleza das flores do cerrado num chão forrado de cristais. Não há pressa de chegar, o que vale é a viagem. Mas vale também o destino: formação rochosa de impossível geometria, ponte natural de pedra a cruzar em arco o lago de águas negras. Tudo que se olha nas águas plácidas, reflete-se como espelho. A Ponte de Pedra invertida diverte o olhar. Mas guarde espaço para os olhos. Em cima da ponte, um mirante revela 360 graus de horizonte selvagem. Tudo verde. Tudo terra Kalunga. O cerrado da Chapada, patrimônio geológico que data de 1,8 bilhões de anos. O habitat de mais de 500 espécies de aves. Casa do tamanduá-bandeira, do lobo-guará, do tatubola, do cachorro-vinagre, da onça-pintada e tantas outras espécies ameaçadas de extinção pelo voraz bicho-homem. Último dia. Vamos ao Engenho II, a comunidade quilombola mais organizada da região. Somos recebidos por guias uniformizados e um almoço caseiro: arroz e feijão na panela de barro do fogão a lenha, frango caipira. O segredo da vida na simplicidade do prato.

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Visitamos a escola local. O Grupo Arte Kalunga e Meio Ambiente encena a peça de teatro Vida de negro. “Nossa batalha é que as crianças entendam e honrem a luta de nossos antepassados e fiquem na terra”, afirma Procópia dos Santos Rosa, 80 anos, espécie de matriarca do povo. No início de 2000, seu nome chegou a ser cogitado para o Nobel da Paz, ao paralisar, praticamente sozinha, a construção de uma hidrelétrica no rio Paranã.

Vistamos a casa de Procópia. Uma choupana cercada de roça. Procópia está dando de comer às galinhas no quintal e nos mostra no pomar o que aprendeu com a terra: o tingui, para fazer sabão; a tiborna, para cola; o capim de cheiro, para gripe; a sucupira, para dor de garganta; a cagaita, para gripe; a resina da bananeira, para dor de dente; as folhas da bananeira, para dor de barriga.

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Entramos. Ela coa um café, puxa uma cadeira e olha dentro dos meus olhos. Sua primeira fala é amena. Relembra dos tempos em que ajudava seu pai a levar farinha de mandioca e feijão até Cavalcante no lombo de um burro e voltava para casa com açúcar, sal, óleo. Depois se exalta ao falar de política. “O povo Kalunga é um sobrevivente do massacre de culturas da colonização e do governo brasileiro. É preciso ter respeito às minorias desse país, como indígenas e quilombolas”, diz.

Nos despedimos de Procópia e vamos com Jovino à cachoeira de Santa Bárbara. Jovino dessa vez nos apressa. “Tem que chegar lá com sol, senão a surpresa acaba.” Uma horinha de trilha fácil e chegamos. Um raio de sol atravessa a mata escura e ilumina um pequeno poço de cachoeira com águas azul turquesa. Parece milagre, uma joia. Escondida como Cavalcante e o povo Kalunga, coisas belas da vida que não se revelam a um primeiro olhar. As águas geladas despertam do sonho.

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Tomamos o rumo da Pousada. Mente na janela povoada de memórias. Jovino, o que quer dizer kalunga? “É uma plantinha que cresce perto dos córregos.” Volto as retinas à paisagem. Silêncio.

Jovino me fita. “Mas meu avô, que foi escravo, me disse que no Congo e Angola, Kalunga é o grande rio-oceano, lugar de passagem, do vivo encontrar o morto e receber a sabedoria dos antepassados. Mas você acredite no que quiser.” Cruzamos a ponte sobre o grande rio Paranã.

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Onde Ficar?
Vale das Araras – www.valedasararas.com.br
Telefone do guia Jovino – (62) 9965-4958 – ou do menino dele, Aureliano – (62) 9959-3101