Budapeste: a “Paris” do Leste

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Por Eduardo Petta | Fotos Carol Da Riva

Calma, muita calma nesta hora! Há no título um claro exagero. Mas os exageros são bem aceitos nessa cidade de mulheres exageradamente lindas.
A noite de Budapeste é uma festa! Outro exagero? Pois depende em qual porta se vai bater.
Renascida em 1989, após quase quarenta anos vestida de cinza com o paletó justo e apertado da cortina de ferro, a capital húngara Budapeste entra cada vez mais nos roteiros de turismo jovem da Europa.

O traje vetusto caiu. Veste apenas a pele dos mais velhos. Por trás das muralhas, castelos e monumentos imponentes, dança uma Budapeste com vinte anos de idade, despontando para o mundo, fresquinha, perfumada.

Mantém os traços medievais,mas já se vislumbra a pós-moderna em galerias de arte, barzinhos badalados e animadas discotecas. Mulheres bonitas chacoalham a cintura soltas pela noite ao som de DJs undergrounds.

A nova Budapeste é divertida como os grafismos e adornos cômicos de suas portas, janelas e telhados. Possui a picardia de colocar, em uma de suas tantas praças, estátuas como a de um Hamlet às avessas. Uma sátira onde o esqueleto segura em sua mão cadavérica uma cabeça humana.

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Os tempos estão mudando. Se há uma década era preciso gritar na rua,a clamar por um ser que falasse inglês, hoje, a juventude domina bem melhor a língua de Shakespeare.
Mas, aviso aos navegantes: nem todos, nem todas. Se uma loira de olhos verdes faiscantes lhe dirigir o olhar, pode ser que ela vos fale só na língua pátria. Mas não é possível negar a beleza e o exotismo do dialeto magyar, como eles dizem, “a única língua que o diabo respeita”.

Aos olhos e ouvidos ocidentais, seus letreiros, chiados e sussurros acabam por se converter em um dos charmes da cidade.
Parafraseando Pessoa, “primeiro estranha-se; depois entranha-se”.

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Pois entranhemos nesta cidade encantada pela marcha serpenteante das águas azuis do Danúbio, a demarcar com o tom sereno de uma valsa a geografia das paisagens.Um rio a unir e a dividir com suas águas uma cidade em dois nomes: a histórica e majestosa Buda, na margem oeste, com suas ruas e ladeiras arborizadas a sombrear belas residências; e a burguesa Peste, planície onde se espalham a leste: comércio,parques, teatros e um dos skylines mais impressionantes da velha Europa.
Integrantes, durante a segunda metade do século 19 e até o final da Primeira Guerra Mundial, do Império Austro-Húngaro (1867-1918), os dois mundos antigos e bem diferentes de Buda e Peste se conectam hoje por nove pontes.

Um conjunto arquitetônico harmonioso, pautado no feliz encontro da arte barroca com a art nouveau, do moderno tecnológico contemporâneo com resquícios old fashion dos tempos sob o domínio comunista.

Um centro urbano para se circular ao ar livre em ônibus dos tempos soviéticos, ou pelo seu intricado mundo subterrâneo, cujo metrô, também desta época, leva a todos os lugares.
Mas voltemos ao ar livre, às margens do Danúbio, onde turistas e nativos se encontram a pé, circulam pelas praças.
Budapeste é uma cidade romântica, com espaço para os casais andarem de mãos dadas, principalmente ao raiar da primavera.
Não é difícil entender a paixão do personagem José Costa, o ghost-writer do romance de Chico Buarque, que se perdeu em amores e de amores pela capital húngara – e pela irresistível Kiska, é verdade.

Em Budapeste, é mesmo preciso se perder para se encontrar. Andar, flanar pela cidade, conhecer gente que é do povo – e que fale inglês, de preferência. Apenas uma dica: decore a palavra köszönöm (algo como “cãssanam”), que significa obrigado, e portas irão se abrir.
Agora é caminhar.

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Caminhando

Um bom começo de tudo é o castelo de Buda (na verdade o antigo Palácio Real). Do seu ponto mais alto, descortina-se uma vista panorâmica que ajuda a se situar nas cercanias.
Nas proximidades do castelo, há um gracioso bairro medieval e uma atração surpreendente: o labirinto do castelo de Buda. Trata-se de uma enorme gruta natural de calcário, antigo refúgio de homens pré-históricos, cujas galerias foram posteriormente ligadas ao palácio por razões militares, durante a Guerra Fria. Relaxe.
Hoje os fortes soldados ganham a vida colocando uma águia no seu
braço. Por alguns euros – é claro.

No centro de Buda, a ponte próxima ao Parque Margareth, na ilha de mesmo nome, propicia outro ponto de vista privilegiado.
Ciclistas passeiam pelo parque e emprestam um colorido à paisagem.
Cores que se misturam ao som do burburinho das famílias e casais no parque, a dar um tom alegre, romântico e jovial,sem deixar de lado uma aura de imponência à capital magyar.
Outro parque encantador de Buda é o Tabán. Conhecê-lo é uma boa desculpa para comer no Borpiac, que fica num lugar bem escondidinho, mas tem ótima cozinha húngara e carta de vinhos especial.
O vinho húngaro não é de se dispensar. Existem 22 áreas vinícolas no país, sendo que as de Tokaj e as de Eger estão entre as mais conhecidas. De Eger vem, por exemplo, o Egri Bikavér (sangue de boi de Éger).

Dizem que, em 1552, a cidade foi cercada pelos turcos durante um mês. Os inimigos se assustaram com a força dos húngaros e diziam que estes provavelmente bebiam sangue de boi.
A culinária rica em carne de Budapeste também merece ser desfrutada.
Seus pratos são carregados na páprica, do tipo doce ou picante. Um dos mais tradicionais é o gulyás, uma sopa que leva carne, cebola e batata. Também há um prato parecido com o goulash, um cozido chamado de pörkölt.

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Já do lado de Peste, estão alguns endereços chiques, como o Four Season Hotel, sem dúvida o hotel com a melhor vista da cidade, e a Vigadó Ter, praça com alguns bares e cafés agradáveis.
Ainda em Peste, vale a pena conhecer o Parlamento, de estilo neo-gótico e muito parecido com o Parlamento inglês, e a Catedral de São Estevão, homenagem ao rei cristão da Hungria,coroado no ano 1000 por Roma e depois canonizado santo.

Uma herança católica que ainda hoje os dez milhões de húngaros,dois milhões deles em Budapeste, fazem questão de perpetuar.
Seja você cristão ou não, para coroar qualquer passeio que se faça em Budapeste tenha em mente terminar num dos tantos balneários de águas termais, para relaxar.
O Széchezyi, no City Park, é o mais tradicional. Uma vez lá,de banho tomado, corpo purificado, aproveite para visitar o castelo Vajdahunyad, cujo jardim intimista cercado por lagoas é um ótimo refúgio na cidade.

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E ainda estique cinco minutos a pé até a Praça dos Heróis, monumento que fica no começo da aristocrática Andrassy, espécie de Champ Elisées de Budapeste, onde se encontram as embaixadas e alguns hotéis e restaurantes exclusivos.
Na esquina da Andrassy fica a livraria Irok Boltja, a antítese das grandes livrarias-supermercados que se espalharam pelo mundo e que faz sonhar qualquer devorador de livros à moda antiga. O local, que também figura no livro e no filme Budapeste,de Chico Buarque, existe há mais de trinta anos e foi reformado há cinco, quando trocou a direção.
Pela livraria circulam jovens bem vestidos e interessados pela leitura, uma das paixões dos novos húngaros – assim como a noite.

A noite é que é

Pois se os dias são mesmo bárbaros em Budapeste, descubra que a noite é que é tudo de bom. Comece em Peste, no passeio da rua Liszt Ferenc, próximo à Opera House. Em apenas uma quadra concentram-se diversos bares e restaurantes, alguns chiques, outros mais populares.
O Fresco, de visual mouro futurista, é point de gente cool. Se você tem entre 20 e 40 anos,tente o Barokko, com ares de night club dos anos 1980, ótimos drinks e um pouco mais de descontração no subsolo. Ainda há outros. A Liszt Ferenc é perfeita para um começo de noite ou para se ambientar à vida noturna da cidade.
Outro lugar a se pensar antes de sair é Váci Utka, a artéria comercial da cidade e ponto de referência da região central, onde fica o antigo bairro judeu, local da Grande Sinagoga da Europa. Em reconstrução, o bairro é cheio de cantinhos escondidos,galerias com lojas descoladas e uma cena muito interessante.
É que em Budapeste criou-se uma tradição de se abrir bares em prédios abandonados, espécies de ocupações autorizadas. Um reflexo do espírito underground que a cidade parece transpirar.
Paga-se uma renda ao senhorio, até que este se decida por demolir a construção, espalha-se mesas, banquinhos, cerveja,música, e voilá, mágica: ferve de gente.
O mais radical deles é o Szimpla, um lugar onde é possível passar na frente por várias vezes sem suspeitar que o que rola lá dentro é tão divertido. Para chegar ao seu interior, entra-se por um corredor escuro de uma rua deserta nas redondezas da Sinagoga, até dar de cara com essa mistura de bar, casa noturna e centro cultural.
A decoração incorpora o ar decadente de uma casa em ruínas e procura dar um clima alegre com objetos diversos de demolição. Há internet wireless livre e muita gente passa o dia ali trabalhando, numa boa.
Todas as terças, no começo da noite, há jazz ao vivo.

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Uma vez aquecido, pé na noite apenas para crescidos. Destino:o Gödör Klub, escondido numa espécie de subterrâneo da Praça Erzsébet. O espaço é amplo e bem iluminado. Logo na entrada,no palco: shows de rock. O bar fica em espaço separado e conta com mesas de bilhar. Por fim, para bem mais tarde, só para aqueles que possuem o coração da madrugada, a sugestão é perder-se no West-Balkán. Não dá para resistir à alegria da pista.

O DJ incendeia com uma mistura de música cigana húngara e beats de eletrônica. Alquimia que coloca toda a gente para dançar. Brincadeira que só acaba quando o dia amanhece.
Para a nova geração húngara (e para os seus sortudos visitantes),Budapeste é mesmo uma festa.

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