Amazona, com muito prazer

Amazona, com muito prazer

Tradição, paixão e dedicação levam a jovem Luiza Almeida a representar o Brasil, pela segunda vez, na modalidade adestramento clássico, nos Jogos Olímpicos

Por Simone Fonseca | Fotos Marisa Cauduro

Os fatos são irrefutáveis.

Luiza foi a atleta mais jovem em toda a história do hipismo a participar de Jogos Olímpicos, no de Pequim em 2008, com apenas 16 anos. Isso garantiu sua entrada para o Livro dos Recordes.

Aos 15 anos, nos Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro, em 2007, ajudou a equipe brasileira a levar um bronze e a quebrar um recorde de 24 anos sem medalhas. Detalhe: era segunda reserva e entrou como titular na última hora, substituindo uma atleta que saiu devido à lesão de seu cavalo e um outro atleta que teve uma intoxicação alimentar. Destino?

Aos 18, foi a primeira representante da América do Sul no World Cup Dressage, na Holanda, onde estavam os cinquenta melhores conjuntos – cavalos e cavaleiros – do planeta e venceu o Prêmio Brasil Olímpico do Comitê Olímpico Brasileiro (COB).

E, hoje, aos 20 anos, montando Samba e Pastor, assegurou o posto de melhor das Américas Central e do Sul no ranking mundial e, com isso, a classificação para as Olimpíadas de Londres, em 2012. Ela será a única representante do País a disputar uma medalha individual no adestramento clássico.

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Foi com essa jovem paulistana, dona de conquistas tão importantes e palavras tão articuladas, que conversamos numa tarde de outono, na Hípica Paulista, localizada no bairro do Brooklin, em São Paulo. Com pontualidade britânica, a bela Luiza chegou para a sessão de conversas e fotos.

Paixão vem do berço

À primeira vista, Luiza transmite uma seriedade tranquila. Parece muito concentrada e determinada, mais madura do que as moças de sua idade.

Articulada, talvez por estar acostumada a dar entrevistas ou talvez por frequentar as aulas da faculdade de Direito, conta que está começando a ficar muito ansiosa para as Olimpíadas, que começam em julho. Seus treinos ficarão mais intensos dentro de poucos dias, quando irá para a Alemanha, para o pré-olímpico.

Levará seus dois cavalos, Samba e Pastor. Diz que vai decidir qual deles irá montar na última hora. “Depende do desempenho deles, nos treinos do próximo mês”, afirma.

Conta que seu amor pela montaria começou antes que ela se entendesse por gente. Gosta de dizer que aprendeu a andar à cavalo antes até de andar com os próprios pés. O fato é que aos 2 anos de idade já montava, na fazenda de seu avô materno, em Itu, a 102 km de São Paulo. Ele era criador de cavalos mangalarga. Mas a herança da montaria veio especialmente de sua mãe, Thereza, que, das cavalgadas em cavalos na infância, tomou gosto pelo salto, a mais conhecida das modalidades do hipismo, e influenciou seus quatro filhos, Thaisa, Luiza e os gêmeos, Manuel e Pedro. Os quatro ainda engatinhavam quando seus pais costumavam colocá-los em um lençol amarrado nos cavalos e saiam puxando. Da diversão, nasceu a paixão das crianças pelo cavalo.

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A família Tavares de Almeida tem uma trajetória de respeito, comprometimento e dedicação pelo hipismo. Seu pai, Manuel Tavares de Almeida Filho, é titular da Coudelaria Rocas do Vouga, de Itu, e referência mundial em seleção genética do cavalo puro sangue lusitano. É um profundo conhecedor da raça, tendo ganho vários prêmios nacionais e internacionais. “Papai é meu técnico informal: além do apoio, ele exige muita disciplina nos treinos. Foi ele quem me apresentou ao cavalo lusitano, uma raça comunicativa e dócil”, conta Luiza.

No haras de seu pai, Luiza e seus irmãos aprenderam as primeiras lições de equitação clássica e, assim que a idade permitiu, passaram a competir em provas de salto. Na sua estreia, Luiza tinha apenas 5 anos. Dos primeiros obstáculos, com altura de 0,40m, passou a outros mais desafiadores, a 1,30m.

Aos 12 anos, para corrigir sua postura na sela, passou a praticar adestramento e se apaixonou. “Com o adestramento você aprende a verdadeira equitação. Aprende a controlar o cavalo, a entender os materiais, a posição. Era para eu ficar pouco tempo, só para adquirir experiência e depois voltar para o salto, mas nunca mais saí”, diz Luiza. A opção da pequena amazona pela mais clássica das modalidades hípicas acabou inspirando os irmãos e reforçou os rumos da Rocas do Vouga.

Em meados dos anos 1990, à medida que as crianças aprofundavam seu interesse pelo esporte, Manuel e Thereza passaram a adaptar seu haras para atender às necessidades dos pequenos cavaleiros. E o espaço, até então dominado pelo mangalarga – tipo de raça 100% brasileira –, ganhou novos ocupantes: os elegantes puro sangue lusitano.

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E a tradição portuguesa não se limitou aos animais. A palavra haras, de origem francesa, foi substituída por coudelaria, nome de origem espanhola e atribuído, em Portugal, às propriedades que selecionam cavalos. A fazenda foi rebatizada como Rocas do Vouga, homenagem ao vilarejo da região de Aveiro, no norte de Portugal, de onde imigrou para o Brasil o patriarca Manuel Rodrigues Tavares de Almeida, que, hoje, aos 80 anos, é torcedor orgulhoso de seus netos.

Além de Luiza, Thaisa, sua irmã mais velha, também compete.

Foi a primeira da família a representar o Brasil em competições internacionais de adestramento. Seus irmãos mais novos estão seguindo o mesmo caminho. Manuel foi reserva da seleção brasileira nos Jogos Pan-americanos de Guadalajara, em 2011, e Pedro foi um dos atletas da mais exigente prova de adestramento, o Grand Prix, passando a competir pelo pódio ao lado da irmã Luiza.

“Eu sou muito iluminada”, diz a amazona a respeito de sua família. A família inteira adora o hipismo e é muito unida no apoio às conquistas individuais de cada integrante. Ela já competiu muito com a irmã, disputando as mesmas provas. Diz que uma torcia muito pela outra. “Naturalmente, eu sempre torcia primeiro para mim”, diz a atleta sorrindo, “mas em segundo lugar era a Thaisa.” Luiza Almeida é a primeira da família a conseguir uma vaga para as Olimpíadas.

Entre Samba e Pastor

Samba é branco, nem tão alto, nem tão forte, mas tem um ótimo caráter, expresso em seus olhos, muito doces. Tornou-se a primeira montaria de Luiza Almeida, em 2005. E é seu maior amigo desde então. Ela conta que eles cresceram juntos, aprenderam juntos a criar passos, movimentos, coreografias. Venceram obstáculos e medos. Hoje, como amigos de longa data, se reconhecem por gestos e olhares.

“O Samba eu peguei pequenininho. A única coisa que eu não fiz foi a doma, que é quando o cavalo sai do pasto e ainda é selvagem. Mas aos 4 anos do cavalo, quando começa o trabalho de base, eu já estava com ele”, diz Luiza.

Hoje, passa mais tempo com Samba do que com qualquer outra pessoa. Revela que sente muitas saudades quando não está com ele, e que a primeira coisa que faz quando chega à Hípica Paulista é ir até a baia dele para falar oi. O cavalo participou das maiores conquistas da atleta, tendo viajado para vários países, inclusive para Pequim, nos Jogos de 2008.

Já o Pastor é maior, mais forte, mais velho e experiente. E é um professor. “Ainda estamos nos conhecendo, pois estou com ele há pouco mais de um ano. Ele foi criado para o adestramento e tem me ensinado muito. O Samba foi criado para a tourada e só depois, comigo, é que começou a praticar adestramento, então existe uma grande diferença na própria formação dos cavalos”, conta a amazona.

Ambos são puro sangue lusitanos, trazidos para o Brasil por seu pai e, com os dois, Luiza registrou bons índices nas provas seletivas que lhe garantiram a vaga para as Olimpíadas – por isso ainda não definiu qual irá levar para fazer dupla com ela em Londres.

“Fui fazendo a seletiva com os dois e parecia que o Samba, queria muito ir, porque nas últimas provas foi super bem, melhor até que o Pastor. Eu estou com uma dor no coração, porque eu vou ter que escolher até dia 30 de junho quem irá comigo para Londres”, explica Luiza.

Ela conta que Samba tem um coração muito grande e que isso é uma característica da raça. “Esses lusitanos fazem tudo para agradar o cavaleiro”, pontua a brasileira.

“Os momentos que eu sinto mais prazer na vida é quando estou junto com o Samba. Eu beijo, mordo. Ele é muito fofo.

Se eu abraçá-lo, ele me abraça de volta. Não dá para explicar. É mágico. E ele demonstra o amor dele por mim na pista, na competição, dando o máximo de si.”

“O Pastor é mais frio, estou tentando amolecê-lo. Ele é um amor também. Mesmo sendo mais velho, ele atende meus pedidos. E nossa relação melhorou muito.” Conta que a decisão de montálo foi devido às limitações físicas de Samba. Os dois cavalos embarcarão com ela para o Pré-Olímpico na Alemanha, viajarão em aviões de carga. Vida de atleta

Seu primeiro grande desafio profissional foi morar sozinha, na Alemanha. Tinha apenas 15 anos. “Eu morava na hípica junto com meu técnico. Eu respirava aquilo. Tinha doze meses para me preparar para Pequim. E, apesar de ter perdido um ano de escola, valeu super a pena. É o sonho de todo atleta chegar a um nível olímpico e você nunca sabe se terá outra oportunidade, então tem que se entregar literalmente de corpo e alma.” Considera que foi um sacrifício muito bem recompensado. Quando chegou às Olimpíadas, se encantou. “A vila olímpica é muito especial. Você vê os melhores atletas de várias modalidades. São muitas histórias de vida que estão ali.

Costumo dizer que é a guerra da paz. Apesar da competição, existe uma união muito forte. Isso é de arrepiar. A atmosfera é maravilhosa: só vibrações boas. Antes de competir dá um frio na barriga e eu gosto de sentir isso. Mas quando você entra na pista, tem que ser a mais fria possível, porque senão o cavalo sente o seu nervosismo e a possibilidade de erro é enorme”, conta a atleta.

Para esvaziar a cabeça, ela fica umas duas horas sozinha, antes da prova, procurando não pensar em nada. “Nem namorado, nem família, nem treinador, nem amigo, nada. Só penso em mim e no meu cavalo. Visualizo os movimentos corretos, e o que devo fazer, caso alguma coisa dê errado. Nessas horas, acho que a experiência ajuda, afinal já participei de muitas provas.”

A prova dura seis minutos. Parece pouco, mas afirma que é eterno – “não passa nunca”. É uma pista retangular, de 20 por 60 metros, e o conjunto de cavalo e cavaleiro faz vários movimentos, sendo que cada um vale de 0 a 10 pontos. A competição do adestramento acontece em três dias. Nos dois primeiros, as coreografias são passadas pelo Comitê Olímpico Internacional e todos os cavaleiros devem reproduzi-las; no terceiro dia, cada atleta prepara a sua própria apresentação, definindo música e movimentos. “Adestramento é uma dança a cavalo”, sintetiza. Luiza geralmente escolhe música brasileira: Tom Jobim, Villa-Lobos. Ainda não definiu qual será a música para as provas de Londres.

Por enquanto, seu foco total é as Olimpíadas. “Neste momento, minha dedicação é integral. Eu pratico o dia inteiro, quatro horas de manhã, quatro horas à tarde. Mas em época sem competição, eu estudo de manhã e pratico à tarde, são três horas por dia.”

Diz que depois das Olimpíadas, quer voltar para o Brasil para continuar seus estudos. Faz Direito na FAAP – Fundação Armando Álvares Penteado –, em São Paulo. Afirma que escolheu essa universidade por seu programa curricular diferenciado para atletas olímpicos. Luiza diz que é uma das poucas instituições que oferece um programa específico para esportistas profissionais, para que não percam o semestre, enquanto estão em preparação.

Quanto ao seu futuro, Luiza acredita que ele está totalmente associado com o mundo hípico, seja comprando e vendendo cavalos, seja preparando os animais e cavaleiros para as competições. Afirma que ainda não dá para viver só de hipismo no Brasil. Ainda é um esporte caro, mas percebe que pouco a pouco vem se tornando mais acessível. Ela, por exemplo, ainda não tem patrocínio.

Depois da nossa conversa, fomos até a baia onde estava Samba. O encontro entre os dois emociona. Ela deu cenoura e torrões de açúcar para ele, que retribuiu com afagos da cabeça. Em seguida, fez algumas demonstrações do adestramento, deixando evidente a sincronia que existe entre ela e seu cavalo.

Quanto a saber quem será o escolhido para ser seu companheiro nas Olimpíadas, só o tempo nos dirá. Mas, independente de ser com seu amigo Samba ou com o belo e imponente Pastor, Luiza Almeida está preparada para se entregar de corpo e alma e realizar uma bela apresentação. Afinal, montar é a sua paixão, seu grande prazer.

Músicas para embalar esta matéria
“Luiza”, de Antonio Carlos Jobim
“Samba de uma nota só”, de Antonio Carlos Jobim
“Bachianas nº 5”, de Heitor Villa-Lobos
“A horse with no name”, de America