A maravilhosa fábrica de pilotos

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Por Betto D’Elboux | Fotos André Rosa

Como dois apaixonados por motos criaram um programa de coaching para quem quer levar suas motos speed para a pista – com técnica, segurança e velocidade. Eles se conheceram há pouco tempo, por meio de um amigo em comum, de um grupo de track days. Em comum, a raiz do nome e a paixão pelas duas rodas. Alexandre Muniz e Alexander Borges iniciaram, no ano passado, uma rica parceria com a Eurobike BMW para desenvolver o projeto BMW Private Team.

Trata-se de uma marca que tem três objetivos bem montados: mantê-los competindo nos principais campeonatos de moto do país – e, a médio prazo,do mundo –, ter um grande representante do motociclismo esportivo, um nome forte e internacional para representar a marca e, o maior deles, dar consultoria para todos aqueles donos de motocicletas, BMW principalmente, que querem aprender a obter o melhor desempenho de seus equipamentos, tanto na rua quanto nas pistas.

“Eu não quero que um cliente da BMW, ou de qualquer tipo de moto, passe pelo que eu passei. Porque se for assim – e eu era um louco! – ele vai desistir, ou vai cair e, pior, pode se machucar”, diz Borges, complementando que “eu era um louco! E se um cliente BMW sair da rua para a pista sem uma base, uma orientação, não vai dar certo. Não dá mais para andar de speed na rua”, diz, convicto.

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As histórias desses dois amigos, e agora sócios, são bem diferentes. Muniz, empresário da área de Tecnologia da Informação, é o mais calmo dos dois. “Eu andava de moto como qualquer pessoa. Mas, em 2006, eu ainda não tinha uma moto speed e tinha vontade de comprar uma. Foi quando a Harley-Davidson lançou uma moto diferente e eu fui ver.Mas não esperava comprar. Achei bonita, mas não queria comprá-la, pois achava que deveria custar uns R$ 70 mil.Curioso, perguntei o valor e o vendedor me disse: R$ 50 mil.Mas você paga metade de entrada, financia o restante em 25 vezes e ainda faz um treino e participa de um campeonato”,conta, revelando como, da noite para o dia, começou a acreditar que poderia ser um piloto de competição.

Borges, o mais “acelerado” dos dois, adorava carros turbo,mas, convencido por um amigo, decidiu comprar uma Kawasaki ZX6, de 600 cc. “Adorava correr na rua, fazer bobagem mesmo. Fazia vídeos, colocava no YouTube. Tudo errado”, confessa. Claro que, daquela maneira, um dia algo poderia acontecer.
E aconteceu. “Raspei em uma Land Rover e bati, a quase 200 km/h, em plena rodovia Ayrton Senna.Quase morri. Por sorte, não me machuquei muito.”Muniz, após sua experiência com o curso de pilotagem conquistado na promoção da Harley, foi mais cauteloso.

Começou logo a procurar os cursos e teve em Luiz Carlos Cerciari um mestre e um coach para o início de sua carreira nas pistas.

“É um esporte que exige muito estudo, muita concentração.Tem de pensar em toda a física, tem de ter calma, cabeça boa. Não é para chegar e acelerar como um louco na pista, que não vai resolver nada. E o legal é que essas características que você acaba praticando na moto, acabam te desenvolvendo como pessoa”, diz Muniz.
Para ele, não ser um motociclista profissional e não depender do motociclismo para ganhar dinheiro é uma vantagem.
Muniz acredita que se tivesse se dedicado a uma carreira quando era garoto, com 15 anos, provavelmente hoje não poderia mais estar fazendo o que mais gosta, que é andar de moto. “Certamente já teria parado, como muitos que começam e param”, acredita.

Feliz com a possibilidade de acelerar nas pistas, Muniz foi participar da Daytona Cup. Das quatro temporadas que o campeonato durou, ele correu três. Eram provas apenas em São Paulo, em Interlagos, disputadas com uma Daytona 955 da Triumph. “Uma moto arcaica, pesada e que, por isso, ajudou bastante no meu desenvolvimento”, diz Muniz.
Quando o campeonato acabou, em 2007, ele terminou na terceira colocação, mas teve uma alegria e felicidade indescritíveis. Tanto que colocou a moto como objeto de decoração na sala da casa dele, como uma relíquia e uma referência dos momentos incríveis vividos com ela.

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Conhecendo os equipamentos

Em 2010 a BMW apresentou um projeto que estava guardado a sete chaves, top secret, a S1000 RR. Detalhe: Muniz sempre foi fã da marca, inclusive dos carros. Quando viu a moto,não aguentou e acabou comprando. “Ela era muito além de qualquer outra, um projeto revolucionário, mesmo. Foi quando decidi começar a planejar a minha volta às pistas,aos poucos. Coloquei na minha cabeça que voltaria devagar,já que tudo isso é um hobby pra mim”, diz.
Naquela mesma época, conheceu Alexander Borges em um track day. E Muniz começou a andar com a moto nova,tanto na rua quanto na pista, para ir conhecendo bem o equipamento e as suas reações. Quando acreditou que estava pronto para voltar a correr, saiu a HP4, no fim de 2013.

“Acredito que eu tenha sido o primeiro a comprar este modelo, mas acabou que dei um passo para trás, pois tive de voltar com o meu plano de me adaptar à moto, bem devagar.Fui me apresentar à moto e deixei ela se apresentar para mim. Andava com ela na rua para amaciar, mas também em Interlagos. E ia evoluindo aos poucos, andava com cuidado para não cair, procurando baixar o meu tempo de volta. Tudo com muita calma”, diz Muniz.

O projeto volta às pistas ia muito bem e, quando terminou o prazo de garantia da moto, ele acreditava que havia chegado o momento de correr com ela. A ansiedade era tanta que Alexandre chegou até a fazer duas corridas com a carenagem original. O resultado foi tão bom que ele só teve elogios para o equipamento. “A HP4 é uma moto que tem muita tecnologia: controle de largada, suspensão semiativa,controle de tração, enfim, tudo o que você possa imaginar,e ainda com um design maravilhoso”, diz ele, que chegou a importar toda a carenagem de fibra de carbono – mesmo com os colegas de pista sugerindo que fizesse de fibra de vidro adesivada, para parecer fibra de carbono.

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Agora, de 1000 cc

Naquela época, Alexander Borges ainda estava na fase “desbielada”. Agora de BMW S 1000 RR, ele continuava acelerando na rua, e fazendo bobagens. “Mas já naquela época, eu sentia que me faltava técnica. Eu tinha a empáfia para acelerar, mas só”, diz Borges. Foi quando ele resolveu fazer alguns cursos. “Fiz os da Motor School, da Motors Company e o da Motor&Cia. Mas eu continuava aprontando:ia acelerando a moto para o curso e voltava do curso acelerando. Eu fazia isso e as pessoas me diziam, ‘vai andar na pista. Para de acelerar na rua’”, diz.
A decisão de disputar o Campeonato Paulista de Motociclismo de 2003, promovido por Leandro Mello, parecia acertada. Tanto que Borges foi campeão, ainda que usasse a mesma moto do dia a dia dele na rua, com a configuração original,piscas, farol e tudo, para correr na pista!

Em 2014, mais um tombo feio e Borges foi obrigado a ficar parado quase um ano, até que um amigo dele, que corria no Supermoto, o chamou para conhecer. “Aquilo é uma loucura!Terra e asfalto, tudo junto. Achei bom para desenvolver mais a habilidade e, ao mesmo tempo, fazia track days de motos no Velo Città, além de treinos de speed junto com o Muniz,em Interlagos.”

A paixão, tanto de Borges quanto de Muniz, por acelerar motos é tamanha que, no ano passado, com o Autódromo de Interlagos longamente fechado para as reformas exigidas pela Fórmula 1, eles chegaram a pensar até em comprar um caminhão baú para subir as motos e ir atrás de pistas, fora de São Paulo. “Foi quando decidimos que era hora de montar um projeto voltado às pistas e com a marca BMW, criando uma equipe que fosse diferente das demais. Foi assim que nasceu a ideia do BMW Private Team”, diz Muniz.

A premissa, para Muniz, que trabalha como executivo em uma empresa que tem grandes clientes no segmento de tecnologia, era que um projeto para uma pequena empresa,uma pequena equipe de motociclismo, poderia ser mais simples. “No meu dia a dia profissional, lido com grandes multinacionais, equipes de 100 pessoas, negociações e projetos estressantes que chegam a durar um ano, todos com prazos e metas… Aí, quando pensamos em uma equipe de motociclismo, tudo é proporcional e relativamente mais fácil. Aqui, o segmento é praticamente um hobby. Então fazer algo que seja planejado e organizado passou a ser viável”, pensou o executivo de TI.

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Assim, em 2015, a BMW Private Team teve o seu primeiro ano de trabalho e, desde o início, com uma parceria muito boa com a Eurobike. Com a expertise de planejamento conquistada na experiência do mundo corporativo, pensando até mesmo no momento de descanso durante os treinos, os resultados apareceram, com corridas memoráveis, entre outras vitórias.

“O Alexander Borges foi o campeão e eu fiquei na terceira colocação do campeonato. Além disso, fomos a única equipe de motociclismo que teve um estande no Salão das Duas Rodas. Tudo isso foi uma experiência muito boa.Tanto na pista quanto na organização, no planejamento,nas estratégias, e por todas as amizades que fizemos,principalmente com toda a equipe da Eurobike”, comemora Muniz.
E isso porque, curiosamente, o objetivo deles para a primeira temporada era… apenas conseguir correr, sem sequer se preocupar muito com os resultados de pista ou mesmo com algum eventual retorno financeiro. “A nossa meta estava toda focada na nossa paixão pelas corridas, pela marca BMW e pelas motos”, diz Muniz.

Nova temporada, novos planos.

Este ano, o projeto da BMW Private Team, principalmente depois de tudo de positivo que aconteceu em 2015, é ampliar as metas.“Nós sabemos que tem muita gente que compra uma moto speed, mas não tem onde usá-la na cidade. Aí, ele tem de colocá-la em um caminhão, marcar um ponto de encontro com amigos no interior de São Paulo, para só então conseguir fazer um track day que seja minimamente prazeroso. Mas é um sacrifício enorme, e ainda tem os riscos da estrada”, diz Borges.

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Pensando nisso, o que a BMW Private Team quer proporcionar aos proprietários de motos speed é que essas pessoas tenham o mesmo prazer que Muniz e Borges têm, mas com mais segurança, principalmente. O projeto de coaching visa não apenas ajudar a encurtar o caminho de quem quer chegar às pistas, como, também, ensiná-las a pilotar em trajetos urbanos, e levá-las para track days organizados. Ou seja, dar uma consultoria que simplifique e encurte o trabalho que eles tiveram, com um custo até mais baixo do que eles gastaram em todo esse percurso de aprendizado, mas, certamente, em muito menos tempo e com toda a segurança. Assim, qualquer pessoa poderá apenas aproveitar o prazer de pilotar.

E não para por aí. Pela BMW Private Team, Muniz e Borges pretendem continuar correndo e, de quebra, constituir uma equipe vencedora, que possa ainda ser formadora de novos talentos e, também, ter um nome de destaque do motociclismo mundial. “Queremos um nome de referência no nosso time”, diz Muniz.
Ao mesmo tempo, eles planejam dar consultoria para proprietários de equipes de motociclismo. “Muitas vezes,vemos que há mecânicos que têm as suas oficinas e que lutam para manter os seus times vivos na pista. Porém, eles não têm visão de negócio. No nosso projeto, a ideia é fazer com que tudo isso se perpetue”, promete Muniz.

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A opinião de Alexandre Muniz & Alexander Borges sobre os pilotos:

“Alex Barros é um amigo. Fomos juntos para Valência, no ano passado, ver a última corrida do Moto GP e é impressionante como ele é conhecido lá! Até mais do que aqui…”
“Valentino Rossi é uma lenda, um exemplo, uma referência. Um grande ídolo.”
“Eric Granado está bem, está no começo, e certamente deverá chegar no Moto GP.”
“Leandro Mello, Bruno Corano, Geraldo Tite Simões, Luiz Carlos Cerciari, Alexander Borges… Todos esses professores são importantes para qualquer motociclista. Eles sabem demais! E não são apenas técnicos, como muito didáticos.”

O case do puff de descanso

Uma das coisas que chamou a atenção para a BMW Private Team logo no começo de 2015 foi a colocação de vários puffs infláveis no box. Alexander Borges conta que, em um dia de treino de moto, depois de quatro ou cinco saídas de 20 minutos na pista,e de andar muito nos boxes para lá e para cá, conversando com várias pessoas, ele acabava ficando muito cansado.
“Um dia,achei um puff, uma poltrona inflável, em uma loja no centro da cidade e decidi comprar. No começo achei que não seria legal,eu podia ser mal visto (risos). Mas quando levei para a pista, todo mundo achou o máximo! Hoje, já comprei uns dez desses, porque vários pilotos também quiseram. Enfim, esse é nosso conceito,de planejar e organizar até mesmo o descanso no dia de treino.A nossa estrutura de box é toda bem pensada, bem montada.”
Então, pode-se acreditar que, a médio prazo, a BMW