A bela trama do crochê com a conversa sincera

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Com talento e expertise, a designer criadora da Catarina Mina, marca de bolsas de crochê, transformou a atividade de pequenos grupos de artesãs do Ceará em um negócio justo, transparente e lucrativo, que já foi assinado por grandes etiquetas

Por Paula Diniz

As artes manuais sempre estiveram na vida de Celina Hissa, a princípio como hobby. Vinda de uma família de arquitetos, foi estudar Publicidade e Design. Trabalhou com direção de arte em agências de publicidade, mas manteve o interesse latente pela criação de objetos. A fertilidade artística do ambiente familiar unida à força do artesanato no Ceará, sua terra natal, criaram o terreno propício onde, aos 22 anos, ela fez seu próprio negócio germinar. “A marca surgiu em 2005 como brincadeira e hobby. A ideia veio da vontade de valorizar a cultura local aliada a um olhar contemporâneo do design”, conta.

O nome foi inspirado em uma personagem histórica do século 18. Catarina Mina foi uma bela e inteligente escrava no Maranhão. Ciente da beleza que Deus lhe deu, teve amantes, economizou uma fortuna e comprou sua liberdade. Alforriou a mãe, adquiriu imóveis e entrou para a história.

Liberdade também tem sido a conquista de muitas mulheres que trabalham para a marca. “Várias artesãs alcançaram a independência financeira na Catarina Mina. Com a renda,
algumas custeiam a educação dos filhos, outras compram bens básicos que não podiam ter, como cama e pia de
aço inox. Uma delas sofria violência doméstica e com a autonomia financeira pôde sair de casa.” Com uma rede de 25 artesãs, a marca tem como pontos fortes o design, o acabamento das bolsas e belas histórias.

“Muito mais que uma marca, somos um projeto aberto e em construção que deseja dar continuidade à cadeia artesanal”, explica Celina. E tem mais! Catarina Mina foi a primeira marca do Brasil a abrir os custos de produção de seus produtos.

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Como conheceu as crocheteiras?

Foram acasos que deram certo. No final da faculdade tive contato com algumas artesãs quando fiz cenografia com artesanato para peças de teatro e estandes com materiais reciclados. Fomos nos aproximando de forma fluida, orgânica, e comecei a pensar nas bolsas.
A primeira tipologia que explorei foi o tear. Hoje o crochê é nosso carro-chefe pelas pessoas que fui conhecendo e descobrindo conexão criativa. Trabalho com vários grupos em locais diferentes do Ceará, como Itaitinga e Maranguape, cada um especializado em um material e técnica.

Já produziram para marcas como Osklen, Le Lis Blanc, Daslu, Água de Côco e outras. Em 2015 deixaram o private label para produzir só para a própria marca. Por quê?

Se desenvolvemos para outra etiqueta não podemos levar nossa história nem a forma de fazer das artesãs em nossos produtos. Nossa proposta é valorizar quem está por trás da marca, convidar o consumidor a conhecer toda a cadeia de consumo, lembrar que consumir não é só comprar, mas também um incentivo a um tipo de vida e produção. Isso só é possível assinando a própria marca.

Também em 2015 lançaram a loja virtual com o projeto #umaconversasincera e disponibilizaram os custos de cada produto no site. Foi a primeira marca brasileira a abrir os custos. Como surgiu essa ideia? O que te inspirou?

A ideia veio da dificuldade de viabilizar a manutenção da rede de produção local. Estava fazendo mestrado sobre modos coletivos de produção, pensando em como viabilizar e comunicar a Catarina Mina de forma mais colaborativa. Soube da Honest By, um e-shop alemão e primeira marca do mundo a abrir os custos. Quis conversar com o consumidor de forma transparente sobre tudo que é envolvido no processo de produção artesanal local. Ouvi coisas do tipo “Os concorrentes vão saber como a empresa funciona”, mas não vejo isso como problema. É uma lógica diferente da tradicional. Confiei muito na maturidade do consumidor para entender a cadeia e refletir comigo.

Abrir os custos é uma forma de ser o mais transparente possível para que as pessoas também se abram ao diálogo e juntos a gente construa uma história. Muitos acham lindo o meu trabalho com artesanato, então se mais pessoas colaboram para viabilizá-lo, fica possível. E temos conseguido! Começamos com cinco artesãs, já estamos com 25. Estamos atingindo nosso objetivo, que é remunerar as artesãs de forma justa. Tivemos um crescimento de faturamento superpositivo e só possível porque muitos acreditaram nessa história, desde formadores de opinião até consumidores pelo boca a boca.

A transparência realmente faz diferença na decisão de compra?

Transparência e sustentabilidade das marcas ainda não são pré-requisito, mas são um grande incentivo. As pessoas compram pelo desejo, pelo design, porque é bom, bonito. E que bom que o produto também é sustentável e tem uma cadeia de produção legal! Já podemos escolher entre marcas mais sustentáveis e exigir uma cadeia mais justa. É um ciclo virtuoso. As marcas atendem às demandas do consumidor. Consumidores mais críticos e questionadores vão demandar mudanças nas cadeias produtivas gerando marcas mais conscientes.

Acha que a transparência sobre os modos produtivos e custos é tendência? Vai pegar entre os empreendedores brasileiros?

É cada vez mais constante. O diálogo mais próximo com as marcas é uma demanda dos consumidores que cresceu com a internet e incentivou a transparência e humanização dos processos. É uma tendência internacional. Espero que pegue!
É muito difícil ser totalmente sustentável e nem acredito que seja possível, afinal estamos falando de consumo, mas alguns movimentos da sociedade civil geram questionamentos sobre a cadeia produtiva. Um exemplo é o Fashion Revolution1 com a #perguntequemfezsuasroupas e o “Compro de quem faz”.
Tem a Renata Abranchs do blog RIOetc, que estimula a compra de produtos nacionais com a #feitonobrasil; a Insecta Shoes, marca vegana e ecológica que teve um crescimento muito grande no último ano com sapatos feitos no Brasil a partir de retalhos de tecidos e reciclagem;
a LUX, marca de cosméticos veganos que tem até foto de quem fez o produto; a Flavia Aranha, que trabalha tecidos com tingimento natural e ecológico. Tem gente produzindo bolsas a partir da reciclagem de pneus com design muito legal. Esses movimentos às vezes partem de marcas, mas precisam do apoio de pessoas influentes para ganhar força.

A transparência nos modos de produção parece ser resultado de uma evolução moral e ética em que o consumidor vem refletindo. Sim. Teve um reality show que levou fashionistas europeias para trabalharem no Camboja onde são produzidas as roupas que elas usam e postam. Elas choraram, se desesperaram com as condições desumanas de produção. Tudo ao vivo. Aos poucos o consumidor vai se aproximando e conhecendo como funcionam as cadeias produtivas. Em geral as pessoas não se implicam porque não conhecem. Conte um pouco sobre a escolha de investir na produção local.

Em 2013 e 2014 o dólar estava bem mais baixo e muitas marcas migraram a produção para países mais baratos. Produzíamos para uma rede de São Paulo que decidiu comprar tudo da China. Sabemos que algumas dessas empresas têm custos de marketing altíssimos. Precisamos equacionar essa balança de forma mais justa para quem está no fim da cadeia, escondido e apertado. Não consigo ver a questão dos fornecedores como algo sazonal ou de moda. Temos que incentivar e tornar possível a manutenção das cadeias locais. É uma escolha necessária e possível, ou vamos criar sociedades muito desumanas, que só pensam no financeiro.

Em 2015 a Catarina Mina optou por mais investimento financeiro no trabalho das artesãs e menos na exposição da marca. Como viabilizou essa escolha? E como tem feito o marketing da marca?

Reinventamos esse caminho. Construímos a marca dando visibilidade à nossa própria essência, que é o trabalho artesanal, e conseguimos notoriedade. Ganhamos o Prêmio ECOERA e fomos convidadas para um desfile internacional na Alemanha ao lado de designers europeus. Hoje o story telling reverbera muito positivamente. Apostamos no pensamento em rede e na possibilidade que cada um tem de atuar como propagador de uma ideia e mantenedor de uma trama. Defendemos que a compra também é uma aposta e que o ato de ser generoso ao passar essa ideia de mão em mão é o que viabiliza a cadeia produtiva. Estamos falando de um trabalho todo feito à mão e convidamos todos a fazerem parte com a gente. Com a internet, redes sociais e novas tecnologias conseguimos uma conversa mais próxima com o consumidor ativo, que se envolve com a causa. O boca a boca é muito mais possível e potencializado na internet. Também por isso escolhemos investir na loja virtual, hoje nosso principal canal de venda.

Quanto ganham as artesãs?

Elas ganham em média de mil a 1500 reais conforme a dedicação de cada uma. Tem o ganho fixo calculado de acordo com o valor do salário mínimo das horas de produção da bolsa e um extra, que é 5% do valor da bolsa vendida. Como viabilizar o respeito ao ritmo próprio das artesãs e atender as demandas da loja virtual e das multimarcas em 10 estados do Brasil?

Respeito ao modo produtivo é não tentar impor um ritmo de produção industrial ao artesão, o que não significa que a produtividade será baixa.

Respeitamos o ritmo e o modo como trabalham: em casa, sem horário fixo, assistindo TV, conversando, cuidando dos filhos. Temos uma relação recíproca de parceria. A ideia da porcentagem vem da noção de que o negócio é nosso e a essência é o artesanato. É flexibilidade com comprometimento. E quando precisa correr, elas correm.

Quais foram seus maiores desafios e aprendizados com a Catarina Mina?

Administrar os lugares além da criação, não fazer as coisas só por idealismo, pensar de forma mais empresarial e ponderada. No ano passado nosso desafio foi crescer com qualidade, esse ano tem sido administrativo, como gerenciar pessoas, estoque e criar metodologias internas mais organizadas para expansão comercial nacional e internacional.

Aprendi que os modos de atuação podem ser reinventados. Trabalhar com artesanato é muito desafiador. Muitos desistem por ser um processo manual, lento, com resultado não tão homogêneo – desafios que podem revelar os pontos fortes da empresa.

www.catarinamina.com

O Fashion Revolution é um movimento internacional que surgiu após o colapso do Rana Plaza, a confecção de roupas em Bangladesh que desabou no dia 24 de abril de 2013 deixando 1133 mortos e 2500 feridos. O objetivo da campanha é a conscientização sobre os impactos ecológicos e sociais que a indústria da moda vem causando. O “Fashion Revolution Day” nos propõe a reconexão com nossas roupas. Perguntando quem fez e de onde vem será possível estabelecer uma relação mais justa e consciente.